A Feira

Convívio de ema: o harém que troca de machos

Imagem: Os Bichos da Editora Abril

Tudo depende de como combinamos as coisas.

O esforço é o da empatia, em alemão einflung, usado por Freud em Os chistes e sua relação com o inconsciente, de 1905.

Este esforço de colocar-se no lugar do outro é que te fornece a identidade.

Porque sem o outro, não tinha como a gente se afirmar nada. No RG, é o outro que diz e carimba.

Vejam como a ema resolve tocar a vida em um modelo de convívio que resolve esta inevitável crise de identidade da modernidade cartesiana e ajuda bem a entender o conceito de liberdade como uma condenação ao modo sartreano de ver a vida.

Porque quando escolhemos uma opção entre milhares, nunca saberemos se aquela foi mesmo a correta.

Nunca experimentaremos as outras que não escolhemos; e como precisamos escolher toda hora uma coisa ou ação em meio a milhares, a probabilidade aritmética de escolhermos errado é muito alta.

A escolha da ema, que gemeu no tronco do jurema, na música de Gilberto Gil, é por um modelo que seria bem problemático seguir em uma sociedade humana contemporânea.

A ema adotou um tipo de modelo que envolve harém e libertação, em fluxo constante e divertido, ao desenvolver um convívio em grupos de um macho e algumas fêmeas.

Quem cuida dos filhotes é o senhor Emo, um ser muito tenso quando trata-se de defender sua galerinha de eminhos fofos.

Quem conhece o jogador Emo, revelado pelo Redenção, ídolo do Bahia, vai entender como é a ema, porque é mesmo que estar vendo Emo.

Pois estes emos, os de pluma e pernas longas e pescoço comprido, não podem nem se ver, que é briga certa, hostilidade total.

A mulher que se controi na ema é poliamorista e tem um desenvolvimento de gênero de fazer inveja a qualquer movimento feminista: depois que uma fêmea põe os ovos, o emo é que vai ficar chocando e cuidando, enquanto a mamãe volta logo pro rolê com as outras emas parças.

Seria mais ou menos depois do parto, o maridão leva o bebê, a mamãe deixa o leitinho naqueles recipientes apropriados tipo uma mamadeira, o maridão cuida do bebê e a mamãe sai pra comemorar o parto bem sucedido com a galera que já tá esperando com todas as providências administradas.

O chato desta questão de gênero, que tomou proporções maiores que a velha luta de classes, é a possibilidade de alguma injustiça com o emo pai que ficou cuidando da ninhada. É que as mina ema tão solta na pista e se aparecer outro macho com algum charme e que apeteçam os instintos emais, elas não vêem nenhum problema em deixar-se devorar pelo novo amor. E em série, respeitando-se a filinha com alguma senha naquelas cabeça azuada de ave selvagem meio vida louca.

Este revezamento faz do harém o protagonista em lugar do emo macho alfa TOP. Porque quanto mais fecundadas por machos diversos, mais uma ema terá variedade genética para resistência a doenças. Também concorre para tipo uma eugenia, considerando-se os padrões mais desejados pelas emas, no momento de entregar-se a um novo emo. É a inclinação para preservar e melhorar a espécie.

Para Schopenhauer, amor era muito isso. Biologia. Quando nos inclinamos por alguém é porque o instinto está certo que o objeto do desejo é o melhor possível para melhorar a espécie. É mais atração que virtude.

Uma criatura como a ema, com este desenvolvimento, no momento de relacionar-se, não é considerada nos Pampas. O povo necessitado vê na ema a oportunidade de arrancar as plumas para conseguir um dinheirinho extra.

Um lugar com tanta carne e proteína animal, como é esta vastidão de natureza do Rio Grande do Sul  e Argentina, podia servir de alívio para a ema viver em paz, com sua sofreguidão curada de galera, mas que nada: a ema é caçada como se caça bezerro.

As emas tão ali de boa com seu emo novo, em mais um rodízio alegrador, quando recebe no pescoção uma boleadora rodopiante que deve doer como quê!

Espécie humana, sai fora, já deu o que tinha de dar, vai cuidar de seu restinho de planeta, que em duas gerações acaba. 

Ficar matando um ser, que é muito superior na hora de relacionar-se, é mais uma vergonha que tenho de meus ditos semelhantes.

FINAL

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