Pílulas de Química

Pimenta malagueta? Um bocadinho mais

Por Hélio Messeder

Você gosta de comida apimentada? A pimenta é uma marca registrada de diversas cozinhas no mundo, como é o caso do meu “país” chamado Bahia. A fama e o uso desse fruto picante vêm de longe e essa especiaria já teve muita importância na época que não se tinha geladeira, uma vez que a pimenta do reino funcionava como antioxidante, ajudando a evitar que os alimentos estragassem facilmente, e para disfarçar o cheiro e gosto rançoso de algumas comidas que não estavam tão boas para o consumo assim. Há mais de 25 espécies de pimenta e por isso variados formatos, gostos e, claro ardências. Mas por que a pimenta arde? O que podemos fazer para a pimenta parar de arder? É sobre isso que falaremos hoje.

Há basicamente duas substâncias que fazem as pimentas arderem. Na pimenta do reino branca ou preta é a piperina e na outras formas que conhecemos de pimenta ( malagueta, dedo de moça, amarela, pimenta-da-Jamaica) é a capsaicina. A quantidade de capsaicina presente no fruto é que diz se a pimenta arde ou não. Diferente do que costumam pensar, a maior parte das substâncias picantes não estão na semente, mas na placenta do fruto (aquela parte branca, onde os caroços ficam grudados). Quando a placenta é rompida pela faca, os grãos absorvem a substância que fará você colocar fogo pelas ventas.

Brincadeiras à parte, precisamos explicar por que a pimenta arde tanto. A capsaicina e a piperina não têm cheiro e nem são detectadas pelo nosso nariz e poderiam passar despercebidas na comida, se não fosse o caso delas estimularem terminais nervosos do nosso corpo ( especialmente na região da boca, nariz e olhos) transmitindo a sensação de quente e dor ao cérebro. É sensacional, porque a substância ardente ativa um receptor que deveria funcionar quando coisas com 43o C atingissem a nossa boca. Ou seja, a substância entra na sua boca, olhos ou nariz e engana seu cérebro. É uma Fake News de quentura e dor. “É fogo que arde sem se ver. É dor que desatina sem doer’.

E por que continuamos comendo essa substância enganadora e que nos faz sofrer? Além da capsaicina e piperina, a pimenta tem um conjunto de outros sabores complexos que marcam o sabor do alimento, contribuindo para uma comida mais saborosa. Além disso, o nosso corpo produz endorfina como resposta à dor. Quanto mais forte a pimenta, maior a dor e maior o prazer posterior relacionado aos traços de endorfina liberados no seu corpo. A pimenta te deu onda e você nem sabia. “É um contentamento descontente”.

Mas como eu tiro essa pimenta de mim? Como faço para tirar essa dor da minha língua? Por conta do hábito, quando sentimos algo quente corremos logo para beber água. A química ri toda vez que você corre para a geladeira. A sensação de quente na sua boca é real, mas o motivo não é algo quente que precisa ser esfriado. Água gelada não vai ajudar muito. O que você precisa é remover a substância dos seus receptores e tanto a capsaicina quanto a piperina não são muito solúveis em água. O ideal é você colocar algo que ajude a solubilizar e leve a substância de uma vez por todas para longe das suas terminações nervosas. Coisas com álcool podem ser excelentes, pois conseguem dissolver essas substâncias. Os destilados são os melhores, pois a quantidade de álcool é elevada. Cachaça ajuda mesmo a se livrar da pimenta ( Tá rindo, pois achou uma desculpa cientifica para beber, como se você precisasse)

Mas se você é menor de idade ou não pode beber por algum motivo ou a pimenta caiu no seus olhos, o leite é uma opção excelente. A proteína do leite envolve as substâncias picantes da pimenta e as leva embora com facilidade. Funciona como um “ detergente” de pimenta. A caseína presente no leite e no iogurte são verdadeiros bálsamos para quem está em crise com a pimenta. Comer pão também pode ser excelente, pois ele absorve as substâncias da sua língua e o ardor diminui.

Acabamos esse papo apimentado por hoje. Semana que vem tem mais uma dose química concentrada para vocês!

Referências

CORRÊA, Thiago Henrique Barnabé et al. TEMPEROS & CONDIMENTOS: UMA “PITADA” INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DE QUÍMICA. Ensino, Saude e Ambiente, v. 9, n. 3, 201

LE COUTEUR, Penny. Os botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história. Zahar, 2006

LIMA, Judieldo de Morais et al. Caracterização de frutos de espécies de pimentas produzidas na região do Cariri paraibano. Revista Brasileira de Gestão Ambiental e Sustentabilidade, v. 5, n. 9, p. 239-247, 2018.

WOLKE, Robert L. O Que Einstein disse a seu cozinheiro 2. Zahar, 2010.

WOLKE, Robert L. O que Einstein disse a seu cozinheiro: A ciência na cozinha (inclui receitas). Zahar, 2002.

LIMA, Judieldo de Morais et al. Caracterização de frutos de espécies de pimentas produzidas na região do Cariri paraibano.

Revista Brasileira de Gestão Ambiental e Sustentabilidade, v. 5, n. 9, p. 239-247, 2018.

https://escolakids.uol.com.br/…/por-que-boca-arde-quando-co…

http://www.ebc.com.br/…/voce-s…/2015/04/por-que-pimenta-arde

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