Café com Pimenta

Por Juliana Barbosa

Arte:Internet

Não foi pelo chocolate, foi pela cor.

Foi apenas uma desculpa para exercer a barbarie.
Nada justifica práticas escravocratas. Ter sido chicoteado é emblemático, reforça o escárnio do racismo estrutural da sociedade.

No início do ano, um outro jovem foi morto no supermercado extra.

Não foi pelo “surto”. Foi pela cor.

Ainda em 2019, um músico foi executado com 80 tiros de fuzil, na frente da família.
Não foi tática de defesa do exército. Foi pela cor.

Em 2014, um adolescente de 15 anos foi amarrado ao poste com uma trava de bicicleta e espancado, na zona Sul do Rio de Janeiro. Ele teve parte da orelha arrancada pelos agressores.

Não foi por justiça. Foi pela cor.

No mesmo ano, no Espírito Santo, Alaiton Ferreira morreu aos 17 anos, depois de ter sido linchado por dezenas de pessoas na região metropolitana de Vitória, que o acusavam de estupro. No entanto, a Polícia Civil capixaba não registrou nenhuma ocorrência de violência sexual contra o adolescente.

Não foi pela acusação de estupro. Foi pela cor.

Em 2017, o caso do adolescente de 17 anos que teve a expressão “eu sou ladrão e vacilão” tatuada na testa como forma de punição por, supostamente, ter tentado furtar uma bicicleta em São Bernardo do Campo.

Não foi pela bicicleta, foi pela cor.

Tortura é crime hediondo. Requintes de crueldade, ares de sadismo.

A UNICEF apontou que adolescentes negros têm um risco de morte 2,88 vezes superior ao dos brancos. O relatório serviu como base para que o Brasil fosse notificado em 2018 pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), por causa da epidemia de violência que acomete a população jovem e negra.

Incitada ainda mais com os discursos de desprezo contra os direitos humanos por Jair Bolsonaro em sua carreira política. Sem esquecer o elogio que ele faz a um militar torturador condenado pela Justiça.

Um levantamento da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, divulgado no fim de julho, mostra que ao longo de 10 meses o órgão recebeu 931 denúncias de tratamentos desumanos praticados contra pessoas presas – mais de 70% delas negras – no Estado.
Em média, três presos são torturados a cada dia.

Confundem a chuteira com a arma. Confundem o guarda-chuva com um fuzil.
Confundem a “quentinha” com um revólver.

Só não confundem a cor quando torturam, não confundem a cor quando apertam o gatilho.

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