Por mais abraços (reais) em Suzy

Como a internet, por comoção ou ódio, desumaniza as pessoas

Foto – G1 (reprodução)

Por Gustavo Medeiros

Há quase duas semanas, o Fantástico exibiu um minidocumentario que contou com a participação de Drauzio Varella sobre a situação das pessoas trans nos presídios . Com uma experiência em trabalhos voluntários no sistema carcerário, o que lhe rendeu um livro, o médico clínico conversou com transexuais detentas,pessoas que, independente de sua condição, sofrem com a discriminação da sociedade.

Entre todas as histórias contadas durante a atração, está a de Suzy, presa há oito anos. Durante este período, a detenta não recebeu a visita de parentes, o que denota a invisibilidade da pessoa trans e a solidão entre as grades dos centros de detenção.

Entretanto, o que chamou a atenção no quadro foi um gesto simples, que parece perder a sua conotação em tempos pós modernos. Drauzio,ao final da conversa, abraçou a detenta, algo que fugiria do convencional se fosse feito por um jornalista. O ato em si causou diversas opiniões e movimentou as redes sociais,polarizando votos de ódio e comoções exacerbadas.

O abraço de Drauzio, destacado do contexto da atração, deu um ar de humanidade, esquecido na visceral idade das contendas que dividiu o país em dois lados. Entre a comoção a esquerda, o ódio irônico a direita e a indiferença, o Brasil paralelo das redes sociais perdeu o bom senso nas suas opiniões. Alias,neste submundo de mágoas verborrágicas que a internet se tornou, perdemos a sensibilidade compreensiva de olhar para o outro em sua integralidade, nos seus erros e nas suas dores.

Para por mais lenha na fogueira da polêmica vazia, uma fake news sobre a causa da prisão correu na internet, uma vez que nada foi dito. Dados oficiais mostram que a pratica do furto é responsável por grande parte das detenções de transgêneros.

Para motivos de esclarecimento, o foco maior da matéria é a invisibilidade da pessoa trans e a adequação do sistema carcerário a este público, algo que foi mostrado em alguns programas de tevê. Vale lembrar que, o transgênero,além da indiferença, é mal visto pelos outros presos em boa parte das detenções muito mais pela sua condição.

Pelas lentes da internet, Suzy se tornou uma referencia, quer seja uma vitima do sistema ou um monstro desenhado pelos incautos. Desumanizamos, com um só clique, pessoas com a maior facilidade. Criamos personagens e não refletimos sobre pessoas. Com as relações em rede, romantizamos e construímos narrativas fora da nossa realidade,longe do que vivemos ou sentimos.

Que possamos sim dar mais abraços reais e verdadeiros em Suzy e em outras tantas mulheres trans que passam despercebidas em nossas vidas, sejam nas celas das cadeias ou nas noites frias das vias públicas.