Café com Pimenta

Por Juliana Barbosa

Silencie sua mente. Começo este texto com um verbo conjugado no imperativo, um dos modos verbais, juntamente com o modo indicativo e o modo subjuntivo. No modo imperativo a pessoa falante leva o seu interlocutor a realizar uma ação, expressando o que quer que ele faça. A ação transmitida por um verbo no imperativo é um pedido, convite, ordem, comando, conselho ou súplica. Parece mas, não é uma dica de português, embora minha mãe tenha me contagiado com a paixão pela língua. A minha intenção, na era da internet, na nova era de governo, é uma convite. Estamos tão inebriados com o poder que imperamos o tempo todo: nas redes sociais, nos aplicativos, nas plataformas digitais, nos corredores das escolas, nas mesquitas, nos locais de trabalho… “Veja como eu vivo”; “Olha quantos amigos eu tenho”; “Leia o que eu escrevi”, “Ouça o que eu disse”… Essa mania de imperar é tão forte que as pessoas deixaram de respeitar umas as outras. Querem impor: Religião, gosto, opinião, até mesmo a sexualidade alheia incomoda mais do que a fome dos mais miseráveis. “Opção sexual”. Então, depois que a dor e o prazer passaram a ser competição, a inteligência é apenas reconhecida em quem concorda comigo. Ah! Se discorda de mim, não é inteligente! Sempre o espelho. E como Narciso acha feio o que não é, MATA. Entretanto, há diferentes formas de encarar a morte: seja de alguém muito próximo, ou até morte coletiva. Se você não se identifica, não se comove. Quando diferenciamos o assassino pela cor da pele, religião ou nacionalidade, há uma perversa hipocrisia na comoção. “Todo preto é bandido, “Todo muçulmano é terrorista, “Todo latino é ladrão”. Jornalistas mudam os adjetivos, conservadores justificam o susto quando “um branco mata”, e esquecemos de que todos estamos suscetíveis a sermos vitimas da violência, ou algoz. Todos os dias centenas de pessoas morrem nas favelas, a maioria era inocente. Mas, o combate a violência ainda tem classe social. Ainda vivemos um apartheid. Podem encontrar quilos ou toneladas de cocaína no avião do político mas, um baseado no bolso de um preto é bala na certa. “Helicoca” de branco pode… Mas, aquele ‘preto maconheiro”, “tocava o terror’ . Estamos exaustos em poucos meses do ano, quando pensamos em superar um luto, acontece outra tragédia, massacre, acidente… Mas, já estávamos cansados e mesmo assim, demos um tiro no pé com essa mania de mandar. Somos piada internacional. E a mente de muitos está gritando. Já parou para pensar que tanta babaquice é uma violência consigo? Esse barulho ensurdecedor parecem tiros.Se é parar viver com tanto verbo sendo conjugado no imperativo, que seja de outra forma. A minha intenção – convite – permanece: Silencie sua mente.