Pílulas de química

Por que eu odeio o sal rosa do Himalaia? A ilusão do colorido e a criação de falsas necessidades

Imagem: internet

Por Hélio Messeder

Vou começar essa pílula contando uma história pessoal. Andava pelo mercado do meu bairro e procurando uma pimenta para colocar no meu almoço e na prateleira vi um sal cor de rosa que custava meus dois olhos e uma parte do meu rim. Olhei novamente o preço e não acreditei. Pensei comigo: por que um sal é tão caro? Por que alguém iria no Himalaia buscar um sal?

Olhando na internet eu percebi que se tratava de uma nova moda. Esse sal estava sendo vendido como algo milagroso, sendo recomendado por alguns médicos e nutricionistas para pessoas hipertensas e sendo vendido aos montes em lojas de produtos naturais. Logo descobri que havia também o sal negro do vulcão, o sal azul da Pérsia e tantos outros sais superpoderosos que poderia ser comprados por aqueles que podem pagar pela mágica da suposta alimentação saudável.

Em alguns lugares, eu vi que as pessoas estão comprando luminárias de sal rosa. Sim. Luminárias de sal rosa. Qual a explicação? Vou colocar entre aspas: “Através da luz, em formato de luminária, a rocha seria capaz de aumentar a energia do ambiente, diminuindo os sintomas da depressão, e melhorar o sono, ao reduzir a quantidade de poluentes e elementos nocivos do ar. Supostamente, o sal absorve as moléculas de água do ar e libera íons negativos, que podem remover partículas de poeira e pólen, causadores de alergias respiratórias”. Minha pressão caiu depois de ler isso, alguém traz um pouco de sal?

Mas vamos logo aos fatos. O sal branco ingerimos na nossa casa é, normalmente, composto basicamente de cloreto de sódio (NaCl). Ele é o ingrediente principal de qualquer sal colorido que possamos encontrar no mercado. Em excesso, o cloreto de sódio está diretamente associado à hipertensão arterial, aos problemas cardiovasculares e aos cálculos renais. Para que o Sal rosa do Himalaia pudesse ser um bom substituto do sal de cozinha refinado ele teria que ter uma quantidade menor considerável de cloreto de sódio, confere? Pois bem, ele não tem. Um estudo publicado no site https://themeadow.com/…/minerals-in-himalayan-pink-salt-spe… mostrou que se tomarmos 10 g de uma amostra de sal marinho e sal rosa encontraremos 3,7 g de sódio no primeiro e 3,7g de sal no segundo. Idênticos. Não no preço, né?

Você pode dizer: mas o sal rosa tem outros minerais que fazem bem! É verdade. Por exemplo, o sal rosa tem mais magnésio e mais potássio e mais ferro que o sal marinho, inclusive é a variedade de minerais na sua composição que dá a ele sua cor rosa. Mas, pense comigo, nenhum sal pode ser responsável pela reposição de minerais no seu organismo. A quantidade que você precisa desses minerais estará presente em milhares de outros alimentos. Se você tiver que usar sal rosa para repor seus minerais, certamente você estará muito mal de saúde. Nem sal e nem açúcar podem ser fontes de minerais para o nosso corpo. Isso vale para o sal de todas as cores.

O sal rosa também não pode absorver água e liberar íons negativos para o ambiente. Na real, se ele absorver agua o sal vai ficar dissolvido como acontece quando você põe o sal branco na água. Assim, a não ser que você queira usar a luminária para temperar sua comida, recomendo a compra de algo mais resistente e estiloso. Não gente, nenhuma luminária de sal rosa pode ajudar na depressão e melhorar seu sono absorvendo íons do ambiente.é importante destacar íons negativos não são uma espécie de olho gordo, ou energia negativa das inimigas invejosas, são apenas partículas com mais elétrons do que prótons.

Em resumo: O sal rosa é apenas um sal comum cheio de impurezas (outros minerais que lhe confere a cor rosa. Retirado de minas do Paquistão (perto da cordilheira do Himalaia), trata-se de um sal bonitinho, colorido mas que faz ABSOLUTAMENTE o mesmo efeito que seu sal de cozinha branco. O sal rosa é o exemplo de que essa sociedade cria falsas necessidades, fantasiamos de cientifico/místico e vendemos a peso de ouro para iludir pessoas em busca de uma vida melhor.

Eu odeio poucas coisas na vida, mas o sal rosa do Himalaia é uma delas. Ele é a prova de que se não soubermos usar o conhecimento científico básico para entender a realidade somos facilmente enganados. Ele é a prova de que precisamos melhorar o nosso processo de divulgação científica e ensino de ciências, para garantir que as pessoas ao saírem do Ensino Médio possam, ao menos, suspeitar das coisas quando elas forem coloridas, ditas quânticas ou explosivas. Ele é a evidência urgente de como precisamos ver o mundo material e a nossa sociedade além do espetáculo e além da aparência. Sem conhecer a natureza e a sociedade nas raízes pagaremos ( já estamos pagando) um preço salgado pelo mitos e explicações fantasiosas do mundo.

Sal rosa do Himalaia deveria ser um xingamento. Dá próxima vez que você achar alguém que odeia muito manda ele ir buscar sal rosa no Himalaia, não há nada mais inútil e ofensivo do que isso.

Nos vemos em breve molequinhos e molequinhas salgadinhos.

Referências

http://www.vitrinegourmet.com/…/a-verdade-sobre-o-sal-rosa…/

https://brasil.elpais.com/…/…/ciencia/1545208054_174787.html

https://veja.abril.com.br/…/sal-rosa-do-himalaia-faz-mesmo…/

https://www.facebook.com/…/a.91275194208…/1390141034348298/…

https://themeadow.com/…/minerals-in-himalayan-pink-salt-spe…
https://onlinelibrary.wiley.com/…/10.1111/j.1745-459X.2010.

Pílulas de Química

Por Hélio Messeder

Para afastar o mal, para afastar a inveja, para trazer o amor em 7 dias, emagrecer e até curar câncer a receita é simples: água com limão
Eu já vi de tudo na internet. Tudo mesmo. Esquilos cantando Beyoncé, bebês fofos, presidente defendendo que livro didático tem que ter pouca coisa escrita, correntes para trazer amor em sete dias e até anuncio para aumentar em alguns centímetros seu… nariz, mas nunca vi algo igual ao “fenômeno” água com limão. Se você fizer uma busca rápida na internet verá milhares de resultados apontando o quão milagrosa é a água com limão pela manhã. A receita é simples: acorde, dê aquele bocejo, reclame do seu dia, olhe o celular, encaminhe-se para a cozinha e beba, em jejum, sua deliciosa água com limão. 10 gotas de fruta cítrica pingado em água morna seria suficiente para você sobreviver a qualquer coisa. Sim, qualquer coisa, água com limão ajudaria a emagrecer, regular intestino, rejuvenescer e até, caros leitores dessa pílula, prevenir o câncer. Depois de ver isso tudo, pensei até em mudar o nome da página para pílula da água com limão.
Mas será que isso tem algum fundamento na ciência? Sem rodeios, minha resposta é Não. Sonoro, alto e quase gritando: Não. Não. Não. E o que estão fazendo e falando sobre esse assunto é muito grave!
Segundo os textos da internet e correntes de Whatssap, o limão seria um elemento alcalinizador ( alguns falam em água alcalina) e como, supostamente, o câncer se desenvolveria em ambientes ácidos, a forma de evitar essa doença seria ter uma dieta rica em elementos alcalinos, deixando o pH do sangue básico, e assim evitando câncer. A água morna com limão também diminuiria a absorção de gordura e contribuiria para o emagrecimento. Além disso, li em alguns sites que essa bebida matinal daria energia para o organismo. Tudo isso usando argumentos mirabolantes e até evocando nome de cientistas e nutricionistas. É uma fake news caprichada.
Mas talvez um pouco de química básica ajude a gente pensar sobre isso (respire fundo, vou pesar a mão na química, mas ninguém solta a mão de ninguém). A história da humanidade fez com que classifiquemos algumas substâncias a partir do seu comportamento: ácido ou básico. Um par de opostos que neutralizariam as propriedades do outro. Assim, se vc quiser, por exemplo, diminuir o efeito de um ácido, precisa de um antiácido que seria, algo que funcionasse como base. Em meios aquosos, uma medida para saber se algo é ácido ou base é chamado pH. O pH é uma escala de acidez, em que o neutro seria 0 7, menos do que isso a substância se comportaria como ácido e mais do que isso a substância teria comportamento de base. Eita, compliquei? Imagine que a Alemanha é uma substância com pH 7 e o Brasil uma substância que o pH foi 1. Neste caso teríamos uma Alemanha neutra e um Brasil ácido (uma maneira fofa de explicar o 7X1).
O nosso sangue tem pH em torno de 7,4, levemente básico, o limão e NENHUM outro alimento consegue alterar significativamente esse valor, o que impossibilita que QUALQUER dieta mude consideravelmente o pH do seu sangue. Se mudar, inclusive, você morre. Assim, o limão, não alterara o pH do seu corpo e NÃO pode prevenir ou curar do câncer.
Mas, suponha por absurdo, que o limão fosse capaz de alterar o pH do seu organismo. Se medirmos o pH do limão veremos que ele tem um valor perto de 2,0, o que significa que ele se comporta… tcharam… tcharam…como ÁCIDO. Como ele poderia alcalinizar o sangue? Como? Nossa Senhora da Química que nos ajude! Alguns sites tentam afirmar que o limão seria ácido, mas que no estômago ou depois dele ficaria básico, eu não encontrei nenhum estudo sério que mostre isso e as explicações sugerem que o ácido do limão neutralizaria o ácido do estômago, o que é um absurdo químico ( veja os detalhes nesse link: https://redes.moderna.com.br/…/a-dieta-do-limao-alcaliniza…/)
Por fim, água com limão não pode dar energia e não emagrece. O que emagrece, via de regra, é alimentação saudável e exercício físico, visto que engordar e emagrecer se relaciona, no geral, a um balanço energético de consumo e gasto.
Porém algumas pessoas dizem que se sentem melhor depois de tomar água com limão. Claro, água pela manhã é sempre maravilhoso, uma vez que essa substância ajuda no melhor funcionamento dos rins, no metabolismo e no funcionamento do corpo. Além disso água morna e picância do limão na boca dão sensação de saciedade fazendo você comer menos. Talvez você possa trocar o limão pela laranja ou abacaxi algumas vezes para variar o gosto dessa sua bebida matinal que não tem nenhum efeito curativo, mas o mesmo efeito na leve redução do apetite
É preciso que a gente entenda de uma vez por todas que não há mágica. Nenhuma mistura vai ser capaz de curar doenças ou mesmo de fazer você emagrecer rapidamente. Essas fake news me preocupam, visto que vi relatos de pessoas que abandonaram seu tratamento de câncer para tomar água com limão. Uma decisão bem azeda e baseada em informações falsas.
Se você quer continuar tomando sua água com limão, tudo bem! O efeito placebo já se mostrou superpoderoso e sei que não consigo mudar a crença das pessoas com essas poucas linhas (eu tento!, rs), mas, por favor, pare de divulgar fake news e vender isso como se fosse científico.
No mais fico por aqui. Vou agora tomar minha água com gás e limão que é super refrescante, que não tem poder curativo e NÃO vai salvar minha vida. Sinto te dizer, mas não foi hoje que encontramos a cura do câncer com aquela frutinha da feira. Bjs básicos


Referências:

BISCHOFF, Fritz et al. The effect of acid ash and alkaline ash foodstuffs on the acid-base equilibrium of man. The Journal of Nutrition, v. 7, n. 1, p. 51-65, 1934.
NELSON, David L.; COX, Michael M. Princípios de Bioquímica de Lehninger-7. Artmed Editora, 2018.
http://www.fsp.usp.br/…/…/18/desmistificando-agua-com-limao/
http://saude.gov.br/…/44714-cura-do-cancer-por-alimentos-mi…
http://saude.gov.br/…/44623-limonada-quente-cura-o-cancer-f…
https://www.mundoboaforma.com.br/limao-faz-mal-para-o-esto…/
https://redes.moderna.com.br/…/a-dieta-do-limao-alcaliniza…/
https://jornalmomentoquimico.wordpress.com/…/bioquimica-a-…/
https://escolakids.uol.com.br/ciencias/quimica-do-limao.htm
https://www.mundoboaforma.com.br/limao-faz-mal-para-gastri…/
https://vejario.abril.com.br/…/agua-com-limao-em-jejum-pre…/

Pílulas de química

Por Hélio Messeder

Tomei todas, estou passando mal e a culpa é da química?

Imagem: internet

Festas de fim de ano chegando, tiozinho fazendo piada do pavê ou para comer, verão chegando com tudo e a galera só quer saber mesmo de uma coisa: tomar aquela cervejinha gelada exxxperta, aquela caipiroska danada ou tudo isso junto e misturado. Aqui em Salvador nós chamamos isso de “comer água” ( não estamos falando de mastigar gelo). O cenário perfeito e mágico se anuncia: clima de paquera e agito, arrocha tocando no rádio, você contando quantos engradados tomou, canudo de metal que já passou em várias bocas, aquela vontade de mandar mensagem para o ex etc.

Tudo no devido lugar para um período comum de fim de ano.
Mas, caro comedor de água, toda magia tem seu preço. No outro dia, ou no mesmo dia para aqueles mais apressadinhos, vem a famosa e inimaginável: RESSACA. Mais conhecida como “nunca mais vou beber de novo”, a ressaca é aquele negócio que parece amor, você não sabe definir direito, só sabe sentir. Então, como isso aqui é uma pílula química, falemos quimicamente sobre essa tal ressaca.

A ressaca é um negócio que a ciência já estuda há muito tempo, mas não temos muitos consensos sobre suas reais causas. Para a maior parte dos cientistas, os sintomas de intoxicação de quando se bebe álcool em demasia se dá por vários fatores combinados. O primeiro seria o excesso de enzimas que seu fígado precisa produzir para degradar o etanol. Quando você bebe demais, seu fígado ativa o modo power ranger megazord e termina produzindo mais enzima do que o necessário. Esse leve excesso, seria um dos responsáveis pelos sintomas desagradáveis da ressaca. É dái, inclusive, que surge a ideia de que para “rebater” a ressaca seria preciso tomar uma cerveja no dia seguinte ( Não faz isso não beloved, tu vai entrar num ciclo sem fim).

Ainda sob responsabilidade do fígado, quando ingerimos etanol, este é convertido em acetaldeído e logo depois em acetato (inofensivo para o organismo). No entanto, quando bebemos muito, a velocidade de conversão do etanol para o acetaldeído é maior do que de acetatldeído para acetato. O excesso de acetaldeído na corrente sanguínea parece contribuir para os enjoos, vermelhidão, pressão baixa etc.

Mas se tu achou que o etanol era o único problema da sua noite de farra e excessos está bem enganado. As bebidas são misturas de vários outros compostos químicos, os chamados congêneres, a depender da sensibilidade ou metabolismo das pessoas a quantidade ou tipo de congênere pode potencializar o efeito da ressaca ( metanol, por exemplo, é um congênere de muitas bebidas). Eis o motivo de sua ressaca ficar mais forte ou mais fraca a depender do que você misturou na balada. Miga, deixa eu te falar: catuaba, Skol Beats, Vodka e litrão de devassa não tem corpo que aguente tanto congênere. Melhore!

Mas parece que essas não são as únicas causas. O álcool tem efeito diurético e você perde bastante líquido enquanto está na balada com o copo sempre cheio e o coração vazio. A falta de água causa dor de cabeça, sede, além de desregular o sódio e o potássio do organismo.

Não há tratamento eficaz para ressaca, a não ser esperar seu fígado processar todo o álcool que tu bebeu naquele open bar maroto de cerveja quente. Todos os tratamentos comuns ( café, antiácido, analgésico, anti-histamínico, banho gelado) servirão para aliviar os sintomas, mas não aceleram o metabolismo do fígado. Além de aliviar os sintomas com chás e remédios, beber bastante água e comer coisas com mais açúcar podem ajudar nesse processo de você voltar das cinzas da balada.

No mais é isso, aproveite o fim de ano, se for comer água não case e me chame. E assim como a dor de amor, a ressaca vai passar e você vai amar beber de novo e não cumprir mais essa promessa no fim de ano.

Referências

https://super.abril.com.br/compor…/como-enfrentar-a-ressaca/

https://super.abril.com.br/…/8-remedios-faceis-de-encontra…/

https://super.abril.com.br/cien…/por-que-ficamos-de-ressaca/

https://brasil.elpais.com/…/…/ciencia/1465993715_476877.html

https://drauziovarella.uol.com.br/alimen…/cafe-cura-ressaca/

https://www.chemistryviews.org/…/Chemistry_of_a_Hangover__A…

https://www.chemistryviews.org/…/Chemistry_of_a_Hangover__A…
http://asverdadesdaquimica.blogspot.com/…/principais-causas…

http://www.petquimica.ufc.br/a-quimica-da-ressaca/

GOMES, Bruno da Silva. Efeitos causados pela ingestão de álcool em praticantes de musculação. 2013.

ANDRADE, Zilton de Araújo et al. As relações entre álcool e fibrose hepática. 2006.

Pílula de Química

 Refrigerante: uma bebida ou uma arma química?

Por Hélio Messeder

 (Leo Natsume/Mundo Estranho)

Vocês já ofereceram refrigerante para alguém que não toma mais essa bebida? Inicialmente a pessoa faz uma cara que parece que você está oferecendo um líquido extraído de Chernobyl  temperado com pedras de Cesio 137. Diante daquela cara, ela poderia dizer apenas NÃO e seguir sua vida, mas uma pessoa que não bebe mais refrigerante sente-se vitoriosa e com uma vontade incontrolável de converter as pessoas ao “não-refrigerantismo”, então ela diz sorrindo:

 “Não, obrigada. Me livrei desse vício. Tem 8409 mil anos que não bebo refrigerante. Você deveria parar. Esse negócio tem química. Causa câncer”  

Eu sempre fico achando que os adeptos do não-refrigerantismo tem uma competição interna, para ver quem fica mais tempo sem beber esse líquido do capeta. Nunca entendi por que dizer a quantidade de anos que não bebe refrigerante ajuda na construção do argumento. Imagina se isso vira moda? Quer namorar comigo? Não, me livrei desse vicio, tenho 5 anos sem namorar e você deveria parar com isso, tem muita química

 Os partidários do não-refrigerantismo estão em todos os lugares, inclusive e claro, nas correntes de zap zap do tiozão. Reproduzo aqui um trecho curto de uma dessas corrente que mostra o que acontece se você beber refrigerante: “Pesquisas realizadas pelo renomado Instituto Fleury apontaram grande quantidade de Fenofinol Ameido e Voliteral, substancias tóxicas e que causam, respectivamente, a má atividade dos rins e câncer.” Seria mesmo o refrigerante essa bomba ou essa arma química? 

Podemos dizer que o refrigerante é composto de água, açúcar, um xarope contendo várias substâncias em pequenas quantidades (cafeína, corantes, conservantes, acidulantes, óleos essenciais, cafeína) e CO2 dissolvido ( o gás do refrigerante). Basicamente 88% da massa total do refrigerantes é de água e quase todo o resto de açúcar (11%).

Não há muita ou pouca química no refrigerante. O que há é um conjunto de substâncias que solubilizadas em água e açúcar e com um gás dissolvido causa uma explosão de sensações na boca. Se tiver gelado, à medida que que o refri vai passando pela sua boca o gás vai se desprendendo do líquido, absorvendo a energia em forma de calor e dando refrescância. Uma combinação inacreditável para quem gosta de doce.

Uma lata de refrigerante tem cerca de 2 colheres de sopa cheias de açúcar. Não são 9 ou 10 colheres como aparece em algumas Fake News, mas ainda são muitas. Esse é o principal problema do refri. A quantidade de açúcar exagerada em cada dose torna o líquido um inimigo da dieta, das pessoas com diabetes e daqueles que não gostam muito de coisas adocicadas.  A acidez pode causar problemas para que tem questões no trato digestivo. Tirando isso, não há nenhum estudo comprovado, sério e de longa escala que mostre que o refrigerante é um veneno. As pesquisas que tentam associar algo ao refrigerante, apenas mostram que o açúcar em excesso pode estar vinculado a algum tipo de doença, mas açúcar em excesso não é problema único do refrigerante.

Que conclusão chegamos com tudo isso? Simples. O consumo moderado de refrigerante não causa mal nenhum. Diante de uma dieta equilibrada, fazendo exercícios físicos regulares, o refrigerante é um alimento como qualquer outro. O excesso é que pode causar problemas.  A química aponta que você precisa parar de se culpar se tomou aquele refri na festinha do domingo. 

Por fim, sucos de caixinha tem, no geral, tanto açúcar como refrigerante e não são bons substitutos.  Refrigerantes levemente gaseificados (aquarium, H20H!!) são muito parecidos com refrigerantes diets, são boas alternativas para o açúcar, mas há mais estabilizantes e adoçantes (outra pílula, rs). Assim, os diets também devem ser consumidos com moderação. Água com gás, sucos da fruta sem açúcar e água de coco podem funcionar como melhores substitutos.

Já ia me esquecendo: a corrente do whatsapp é falsa e eu sempre vou revirar meus olhos para os adeptos do “não-refrigerantismo”. O refrigerante é só uma bebida.  Como qualquer outra, aprecie com moderação.

Referências

GODINHO, Mariana da S. et al. Classificação de refrigerantes através de análise de imagens e PCA. Quim. Nova, v. 31, n. 6, p. S1-S4, 2008.

LIMA, A.C.S.; AFONSO, J.C. A química do refrigerante. Química Nova na Escola, n. 31, p. 210-216, 2009.

PIRES, Diego Arantes Teixeira; MACHADO, Patrícia Fernandes Lootens. Refrigerante e bala de menta: explorando possibilidades. Química Nova da Escola, v. 35, n. 3, p. 166-173, 2013.

https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/os-mitos-as-verdades-sobre-os-refrigerantes-7977007

http://www.saude.gov.br/fakenews/44771-refrigerantes-falta-de-atividade-renal-e-tumores-fake-news

https://noticias.r7.com/saude/nutricionista-destaca-os-beneficios-do-consumo-moderado-de-acucar-05092013

Pílula de Química

Mas o que é “Quântico”?

Por Hélio Messeder

AVANÇO PROMETE AUMENTAR OS RECURSOS DE ARMAZENAMENTO EM DISPOSITIVOS ELETRÔNICOS E APRIMORAR A COMPUTAÇÃO QUÂNTICA (FOTO: PIXABAY)

Deite em um colchão quântico para energizar seus spins e ter uma noite de sonho maravilhosa. Levante e lave o rosto na água quântica da sua torneira. Faça uma meditação e conecte sua consciência quântica com as outras consciências, também quânticas. Vá trabalhar e no caminho do ônibus lotado, faça sua consciência quântica meditativa atrair dinheiro.

Pense comigo, se o seu corpo é feito de átomos e o dinheiro também, se você conectar as ondas vibratórias do seu corpo na mesma frequência que o dinheiro, certamente ficará rico. Isso não foi eu que inventei, foi a física quântica, dirão alguns entendidos. Crie sua própria realidade pensando positivo, dirá seu coach quântico, citando alguma frase motivacional atribuída à Clarice Lispector; a primeira poetisa quântica do Brasil. A lista é enorme e infinita: sexo quântico, sal quântico, comida viva quântica, saúde quântica. Mas o que a ciência tem a dizer sobre o termo quântico?

Quantum, significa quantidade em latim. Dizemos que uma grandeza é quantizada

Quando ela só pode assumir determinados valores múltiplos de um valor mínimo (um quantum). Não entendeu nada, né? Melhor ficar mesmo deitado no seu colchão quântico. Mas eu vou tentar explicar isso melhor: O quantum do dinheiro brasileiro é o “centavo de real”, isso significa que o dinheiro só pode assumir valores múltiplos do centavo. O fato do dinheiro ser quantizado no centavo é que permite a existência de lojas R$ 1,99 e não lojas de R$ 1,998.

É o que me impede de cobrar 1 milésimo de centavo para você ler esse post. Assim, o termo quântico ou quantizado tem a ver com quantidades descontínuas que não podem assumir qualquer valor. Nada de místico. Nada de espiritual. Apenas um conceito para pensar grandezas.

Mas por que a ciência precisou usar o termo quantizado? Acontece que o estudo aprofundado da matéria, levou cientistas a concluírem que em níveis atômicos e moleculares as leis que regem os fenômenos são diferentes das leis clássicas que estávamos acostumados a trabalhar. Assim, a luz, por exemplo, pensada como uma onda contínua, teve que ser interpretada levando em consideração sua natureza quantizada. O quantum da luz seria o fóton (que a gente também houve muito falar).

A mecânica, quântica, a física quântica e a química quântica vão se dedicar a estudar a matéria no seu nível atômico, molecular e entender o seu comportamento levando em consideração as grandezas quânticas. Não há nada de misterioso. É só a ciência se aprofundando no estudo da matéria. Mas, e o que sua vida muda com isso? A física quântica e a química quântica permitiram/permitem avanços tecnológicos importantes, mas não tem NAAAAADAAA (sim, eu estou gritando) a ver com união de consciência cósmica meditativa ou a ideia de que você cria sua própria realidade.

As leis aparentemente diferentes que regem os fenômenos submicroscópicos, não servem, infelizmente para você atrair o dinheiro, mesmo ele sendo quantizado. A energia estudada pela física quântica não tem nada de espiritual, trata-se de uma propriedade da natureza. O estudo vibracional da física quântica, não tem relação alguma com você entrar em transe profundo.

Em suma, meus amigos, se alguém está usando quântico para agregar valor a um produto ou para justificar crenças religiosas, fuja, é cilada da pesada. Se você é privilegiado e quer ir meditar no cume do Everest sem roupa de frio ou ficar postando fotos de frases de auto ajuda falsamente meritocráticas, vá na paz, só não use a mecânica quântica para justificar suas viagens. Não preciso dizer né: coach (oi?) quântico nem existe Beijos quantizados para vocês ( viu, a menor unidade é o beijo mesmo)

Referências:
ATKINS, Peter; JONES, Loretta; LAVERMAN, Leroy. Princípios de Química-: Questionando a
Vida Moderna e o Meio Ambiente. Bookman Editora, 2012.
BROWN, Theodore L. et al. ciência central. Pearson Prentice Hall: São Paulo, 2007.
HEWITT, P. G. Fundamentos de física conceitual. Bookman, 2000
SILVA, J. L. Quantum de uma grandeza e sistema quântico (não publicado)
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldojoselopes/2019/02/o-produto-ou-servico-
tem-o-adjetivo-quantico-no-rotulo-e-picaretagem.shtml
https://amenteemaravilhosa.com.br/conexao-entre-fisica-quantica-e-espiritualidade/

Pílula química

Flúor e a Teoria da Conspiração: é de cair os dentes, digo, o queixo.

Por Hélio Messeder

(Wendell Araujo/Mundo Estranho)

Estava indo para o trabalho um dia desses e o motorista do Uber puxou conversa. Falava empolgado que, além de motorista, ele trabalhava vendendo pasta sem flúor e colchão quântico alinhador de spins. Enquanto dirigia, me explicava empolgado sobre os benefícios do colchão e da pasta de dente feita de babosa. Sem respirar, me contou que o flúor era colocado nas pastas de dente e na água por um governo que gostaria de controlar nossas mentes e que o flúor seria responsável por calcificar a glândula pineal impedindo a gente de pensar e se conectar com a nossa espiritualidade.  Aquele argumento não era novidade, já tinha visto em alguns debates na internet e até alguns médicos falando que o flúor seria algo tóxico, pois esse gás era subproduto das industrias e foi colocado na água como forma de se livrar da substância residual do mal. Já vi textos de Whatsapp que apontam que os problemas de tireoide seriam devido ao flúor que está, na tabela periódica, na mesma família do iodo e o substitui causando problemas que nenhum médico é capaz de prever. Substituindo a pasta de dente, o pessoal sugere o uso de açafrão, aloe vera, óleo de coco, argila e outras muitas coisas que transformam a boca numa cozinha do Master Chef amadores. Mas antes de sair por aí trocando a pasta de dente por urucum quântico do himalaia, vamos ouvir o que a ciência tem a dizer sobre isso.

Internet

         A primeira coisa que precisamos ter claro é que o flúor da pasta de dente não é o gás flúor (F2) que é tóxico e corrosivo. O que temos na pasta são compostos de flúor (Fluoreto de sódio, fluoreto de estanho, monofluorfsfato de sódio).  Se tem uma coisa que a ciência química nos ensina é que a forma que um elemento aparece em alguma substância muda todas as suas propriedades. Assim, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o flúor da pasta de dente      (que e aparece como íons fluoreto) não parece em nada, em termos de propriedades, com o gás flúor ( substância formada pela molécula de F2). Assim, fique tranquilo, o flúor da sua pasta não vai te corroer por dentro ou fazer você morrer.

       Outro ponto importante é saber que os íons fluoreto quando incorporados na água e na pasta de dente ajudam a minimizar o processo de desmineralização do dente. A incorporação dos íons flúor forma a fluorpatita que misturada com a hidroxipatita já presente nos dentes deixa o esmalte dental (pode falar assim?) mais resistente. Dentes mais fortes, como nos ensinou a fatídica propaganda dental, não entram cáries.

       Todas as pesquisas apontam que não há nenhum perigo em usar sais de flúor na água e na pasta de dente, principalmente porque a quantidade desses sais é muito pequena e não acumulativa no organismo.  O flúor não pode calcificar a glândula pineal, pois quem calcifica é o cálcio (rsrs)  e também pois não há evidencia de formação de nenhum sal solúvel nessa glândula e nem influencia na tireoide

     O excesso de flúor pode causar fluorose. Essa doença causa manchas esbranquiçadas nos dentes e acontece se água estiver com muito sais de flúor ou se você comer muita pasta de dente (por isso presente em crianças). Se você estiver pretendendo trocar a manteiga do café da manhã por pasta de dente, talvez seu dente fique um pouco amarelado.

        E as receitas naturais de pasta de dente? De fato, sua efetividade precisa ser estudada, mas eu fico com o conselho que minha mãe me deu na infância: nem tudo é para colocar na boca. Escove os dentes direitinho com pasta de dente, passe o fio dental e use açafrão como tempero.

 Eu dei 5 estrelas para o motorista do Uber. Para a teoria da conspiração com flúor, eu daria 1 estrela, ou melhor, eu acho que ela nem merece ser avaliada e precisa ser denunciada e banida de qualquer aplicativo de transporte ou de comunicação.

Referências:

RAMIRES, Irene; BUZALAF, Marília Afonso Rabelo. A fluoretação da água de abastecimento público e seus benefícios no controle da cárie dentária: cinqüenta anos no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, v. 12, p. 1057-1065, 2007.

CURY, Jaime Aparecido. Uso do flúor e controle da cárie como doença. In: Odontologia restauradora: fundamentos e possibilidades. 2002. p. 31-68.

SILVA, Roberto R. et al. A química e a conservação dos dentes. Química Nova na Escola, v. 13, p. 3-8, 2001.

STORGATTO, Greyce A. et al. A Química na Odontologia. Química Nova na Escola, v. 39, n. 1, p. 4-11, 2017.https://super.abril.com.br/saude/estudo-mostra-que-fluor-da-pasta-de-dentes-e-sim-essencial-contra-carie/

Pílulas de Química

Pimenta malagueta? Um bocadinho mais

Por Hélio Messeder

Você gosta de comida apimentada? A pimenta é uma marca registrada de diversas cozinhas no mundo, como é o caso do meu “país” chamado Bahia. A fama e o uso desse fruto picante vêm de longe e essa especiaria já teve muita importância na época que não se tinha geladeira, uma vez que a pimenta do reino funcionava como antioxidante, ajudando a evitar que os alimentos estragassem facilmente, e para disfarçar o cheiro e gosto rançoso de algumas comidas que não estavam tão boas para o consumo assim. Há mais de 25 espécies de pimenta e por isso variados formatos, gostos e, claro ardências. Mas por que a pimenta arde? O que podemos fazer para a pimenta parar de arder? É sobre isso que falaremos hoje.

Há basicamente duas substâncias que fazem as pimentas arderem. Na pimenta do reino branca ou preta é a piperina e na outras formas que conhecemos de pimenta ( malagueta, dedo de moça, amarela, pimenta-da-Jamaica) é a capsaicina. A quantidade de capsaicina presente no fruto é que diz se a pimenta arde ou não. Diferente do que costumam pensar, a maior parte das substâncias picantes não estão na semente, mas na placenta do fruto (aquela parte branca, onde os caroços ficam grudados). Quando a placenta é rompida pela faca, os grãos absorvem a substância que fará você colocar fogo pelas ventas.

Brincadeiras à parte, precisamos explicar por que a pimenta arde tanto. A capsaicina e a piperina não têm cheiro e nem são detectadas pelo nosso nariz e poderiam passar despercebidas na comida, se não fosse o caso delas estimularem terminais nervosos do nosso corpo ( especialmente na região da boca, nariz e olhos) transmitindo a sensação de quente e dor ao cérebro. É sensacional, porque a substância ardente ativa um receptor que deveria funcionar quando coisas com 43o C atingissem a nossa boca. Ou seja, a substância entra na sua boca, olhos ou nariz e engana seu cérebro. É uma Fake News de quentura e dor. “É fogo que arde sem se ver. É dor que desatina sem doer’.

E por que continuamos comendo essa substância enganadora e que nos faz sofrer? Além da capsaicina e piperina, a pimenta tem um conjunto de outros sabores complexos que marcam o sabor do alimento, contribuindo para uma comida mais saborosa. Além disso, o nosso corpo produz endorfina como resposta à dor. Quanto mais forte a pimenta, maior a dor e maior o prazer posterior relacionado aos traços de endorfina liberados no seu corpo. A pimenta te deu onda e você nem sabia. “É um contentamento descontente”.

Mas como eu tiro essa pimenta de mim? Como faço para tirar essa dor da minha língua? Por conta do hábito, quando sentimos algo quente corremos logo para beber água. A química ri toda vez que você corre para a geladeira. A sensação de quente na sua boca é real, mas o motivo não é algo quente que precisa ser esfriado. Água gelada não vai ajudar muito. O que você precisa é remover a substância dos seus receptores e tanto a capsaicina quanto a piperina não são muito solúveis em água. O ideal é você colocar algo que ajude a solubilizar e leve a substância de uma vez por todas para longe das suas terminações nervosas. Coisas com álcool podem ser excelentes, pois conseguem dissolver essas substâncias. Os destilados são os melhores, pois a quantidade de álcool é elevada. Cachaça ajuda mesmo a se livrar da pimenta ( Tá rindo, pois achou uma desculpa cientifica para beber, como se você precisasse)

Mas se você é menor de idade ou não pode beber por algum motivo ou a pimenta caiu no seus olhos, o leite é uma opção excelente. A proteína do leite envolve as substâncias picantes da pimenta e as leva embora com facilidade. Funciona como um “ detergente” de pimenta. A caseína presente no leite e no iogurte são verdadeiros bálsamos para quem está em crise com a pimenta. Comer pão também pode ser excelente, pois ele absorve as substâncias da sua língua e o ardor diminui.

Acabamos esse papo apimentado por hoje. Semana que vem tem mais uma dose química concentrada para vocês!

Referências

CORRÊA, Thiago Henrique Barnabé et al. TEMPEROS & CONDIMENTOS: UMA “PITADA” INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DE QUÍMICA. Ensino, Saude e Ambiente, v. 9, n. 3, 201

LE COUTEUR, Penny. Os botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história. Zahar, 2006

LIMA, Judieldo de Morais et al. Caracterização de frutos de espécies de pimentas produzidas na região do Cariri paraibano. Revista Brasileira de Gestão Ambiental e Sustentabilidade, v. 5, n. 9, p. 239-247, 2018.

WOLKE, Robert L. O Que Einstein disse a seu cozinheiro 2. Zahar, 2010.

WOLKE, Robert L. O que Einstein disse a seu cozinheiro: A ciência na cozinha (inclui receitas). Zahar, 2002.

LIMA, Judieldo de Morais et al. Caracterização de frutos de espécies de pimentas produzidas na região do Cariri paraibano.

Revista Brasileira de Gestão Ambiental e Sustentabilidade, v. 5, n. 9, p. 239-247, 2018.

https://escolakids.uol.com.br/…/por-que-boca-arde-quando-co…

http://www.ebc.com.br/…/voce-s…/2015/04/por-que-pimenta-arde