Pílula de Química

 Refrigerante: uma bebida ou uma arma química?

Por Hélio Messeder

 (Leo Natsume/Mundo Estranho)

Vocês já ofereceram refrigerante para alguém que não toma mais essa bebida? Inicialmente a pessoa faz uma cara que parece que você está oferecendo um líquido extraído de Chernobyl  temperado com pedras de Cesio 137. Diante daquela cara, ela poderia dizer apenas NÃO e seguir sua vida, mas uma pessoa que não bebe mais refrigerante sente-se vitoriosa e com uma vontade incontrolável de converter as pessoas ao “não-refrigerantismo”, então ela diz sorrindo:

 “Não, obrigada. Me livrei desse vício. Tem 8409 mil anos que não bebo refrigerante. Você deveria parar. Esse negócio tem química. Causa câncer”  

Eu sempre fico achando que os adeptos do não-refrigerantismo tem uma competição interna, para ver quem fica mais tempo sem beber esse líquido do capeta. Nunca entendi por que dizer a quantidade de anos que não bebe refrigerante ajuda na construção do argumento. Imagina se isso vira moda? Quer namorar comigo? Não, me livrei desse vicio, tenho 5 anos sem namorar e você deveria parar com isso, tem muita química

 Os partidários do não-refrigerantismo estão em todos os lugares, inclusive e claro, nas correntes de zap zap do tiozão. Reproduzo aqui um trecho curto de uma dessas corrente que mostra o que acontece se você beber refrigerante: “Pesquisas realizadas pelo renomado Instituto Fleury apontaram grande quantidade de Fenofinol Ameido e Voliteral, substancias tóxicas e que causam, respectivamente, a má atividade dos rins e câncer.” Seria mesmo o refrigerante essa bomba ou essa arma química? 

Podemos dizer que o refrigerante é composto de água, açúcar, um xarope contendo várias substâncias em pequenas quantidades (cafeína, corantes, conservantes, acidulantes, óleos essenciais, cafeína) e CO2 dissolvido ( o gás do refrigerante). Basicamente 88% da massa total do refrigerantes é de água e quase todo o resto de açúcar (11%).

Não há muita ou pouca química no refrigerante. O que há é um conjunto de substâncias que solubilizadas em água e açúcar e com um gás dissolvido causa uma explosão de sensações na boca. Se tiver gelado, à medida que que o refri vai passando pela sua boca o gás vai se desprendendo do líquido, absorvendo a energia em forma de calor e dando refrescância. Uma combinação inacreditável para quem gosta de doce.

Uma lata de refrigerante tem cerca de 2 colheres de sopa cheias de açúcar. Não são 9 ou 10 colheres como aparece em algumas Fake News, mas ainda são muitas. Esse é o principal problema do refri. A quantidade de açúcar exagerada em cada dose torna o líquido um inimigo da dieta, das pessoas com diabetes e daqueles que não gostam muito de coisas adocicadas.  A acidez pode causar problemas para que tem questões no trato digestivo. Tirando isso, não há nenhum estudo comprovado, sério e de longa escala que mostre que o refrigerante é um veneno. As pesquisas que tentam associar algo ao refrigerante, apenas mostram que o açúcar em excesso pode estar vinculado a algum tipo de doença, mas açúcar em excesso não é problema único do refrigerante.

Que conclusão chegamos com tudo isso? Simples. O consumo moderado de refrigerante não causa mal nenhum. Diante de uma dieta equilibrada, fazendo exercícios físicos regulares, o refrigerante é um alimento como qualquer outro. O excesso é que pode causar problemas.  A química aponta que você precisa parar de se culpar se tomou aquele refri na festinha do domingo. 

Por fim, sucos de caixinha tem, no geral, tanto açúcar como refrigerante e não são bons substitutos.  Refrigerantes levemente gaseificados (aquarium, H20H!!) são muito parecidos com refrigerantes diets, são boas alternativas para o açúcar, mas há mais estabilizantes e adoçantes (outra pílula, rs). Assim, os diets também devem ser consumidos com moderação. Água com gás, sucos da fruta sem açúcar e água de coco podem funcionar como melhores substitutos.

Já ia me esquecendo: a corrente do whatsapp é falsa e eu sempre vou revirar meus olhos para os adeptos do “não-refrigerantismo”. O refrigerante é só uma bebida.  Como qualquer outra, aprecie com moderação.

Referências

GODINHO, Mariana da S. et al. Classificação de refrigerantes através de análise de imagens e PCA. Quim. Nova, v. 31, n. 6, p. S1-S4, 2008.

LIMA, A.C.S.; AFONSO, J.C. A química do refrigerante. Química Nova na Escola, n. 31, p. 210-216, 2009.

PIRES, Diego Arantes Teixeira; MACHADO, Patrícia Fernandes Lootens. Refrigerante e bala de menta: explorando possibilidades. Química Nova da Escola, v. 35, n. 3, p. 166-173, 2013.

https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/os-mitos-as-verdades-sobre-os-refrigerantes-7977007

http://www.saude.gov.br/fakenews/44771-refrigerantes-falta-de-atividade-renal-e-tumores-fake-news

https://noticias.r7.com/saude/nutricionista-destaca-os-beneficios-do-consumo-moderado-de-acucar-05092013

Pílula química

Flúor e a Teoria da Conspiração: é de cair os dentes, digo, o queixo.

Por Hélio Messeder

(Wendell Araujo/Mundo Estranho)

Estava indo para o trabalho um dia desses e o motorista do Uber puxou conversa. Falava empolgado que, além de motorista, ele trabalhava vendendo pasta sem flúor e colchão quântico alinhador de spins. Enquanto dirigia, me explicava empolgado sobre os benefícios do colchão e da pasta de dente feita de babosa. Sem respirar, me contou que o flúor era colocado nas pastas de dente e na água por um governo que gostaria de controlar nossas mentes e que o flúor seria responsável por calcificar a glândula pineal impedindo a gente de pensar e se conectar com a nossa espiritualidade.  Aquele argumento não era novidade, já tinha visto em alguns debates na internet e até alguns médicos falando que o flúor seria algo tóxico, pois esse gás era subproduto das industrias e foi colocado na água como forma de se livrar da substância residual do mal. Já vi textos de Whatsapp que apontam que os problemas de tireoide seriam devido ao flúor que está, na tabela periódica, na mesma família do iodo e o substitui causando problemas que nenhum médico é capaz de prever. Substituindo a pasta de dente, o pessoal sugere o uso de açafrão, aloe vera, óleo de coco, argila e outras muitas coisas que transformam a boca numa cozinha do Master Chef amadores. Mas antes de sair por aí trocando a pasta de dente por urucum quântico do himalaia, vamos ouvir o que a ciência tem a dizer sobre isso.

Internet

         A primeira coisa que precisamos ter claro é que o flúor da pasta de dente não é o gás flúor (F2) que é tóxico e corrosivo. O que temos na pasta são compostos de flúor (Fluoreto de sódio, fluoreto de estanho, monofluorfsfato de sódio).  Se tem uma coisa que a ciência química nos ensina é que a forma que um elemento aparece em alguma substância muda todas as suas propriedades. Assim, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o flúor da pasta de dente      (que e aparece como íons fluoreto) não parece em nada, em termos de propriedades, com o gás flúor ( substância formada pela molécula de F2). Assim, fique tranquilo, o flúor da sua pasta não vai te corroer por dentro ou fazer você morrer.

       Outro ponto importante é saber que os íons fluoreto quando incorporados na água e na pasta de dente ajudam a minimizar o processo de desmineralização do dente. A incorporação dos íons flúor forma a fluorpatita que misturada com a hidroxipatita já presente nos dentes deixa o esmalte dental (pode falar assim?) mais resistente. Dentes mais fortes, como nos ensinou a fatídica propaganda dental, não entram cáries.

       Todas as pesquisas apontam que não há nenhum perigo em usar sais de flúor na água e na pasta de dente, principalmente porque a quantidade desses sais é muito pequena e não acumulativa no organismo.  O flúor não pode calcificar a glândula pineal, pois quem calcifica é o cálcio (rsrs)  e também pois não há evidencia de formação de nenhum sal solúvel nessa glândula e nem influencia na tireoide

     O excesso de flúor pode causar fluorose. Essa doença causa manchas esbranquiçadas nos dentes e acontece se água estiver com muito sais de flúor ou se você comer muita pasta de dente (por isso presente em crianças). Se você estiver pretendendo trocar a manteiga do café da manhã por pasta de dente, talvez seu dente fique um pouco amarelado.

        E as receitas naturais de pasta de dente? De fato, sua efetividade precisa ser estudada, mas eu fico com o conselho que minha mãe me deu na infância: nem tudo é para colocar na boca. Escove os dentes direitinho com pasta de dente, passe o fio dental e use açafrão como tempero.

 Eu dei 5 estrelas para o motorista do Uber. Para a teoria da conspiração com flúor, eu daria 1 estrela, ou melhor, eu acho que ela nem merece ser avaliada e precisa ser denunciada e banida de qualquer aplicativo de transporte ou de comunicação.

Referências:

RAMIRES, Irene; BUZALAF, Marília Afonso Rabelo. A fluoretação da água de abastecimento público e seus benefícios no controle da cárie dentária: cinqüenta anos no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, v. 12, p. 1057-1065, 2007.

CURY, Jaime Aparecido. Uso do flúor e controle da cárie como doença. In: Odontologia restauradora: fundamentos e possibilidades. 2002. p. 31-68.

SILVA, Roberto R. et al. A química e a conservação dos dentes. Química Nova na Escola, v. 13, p. 3-8, 2001.

STORGATTO, Greyce A. et al. A Química na Odontologia. Química Nova na Escola, v. 39, n. 1, p. 4-11, 2017.https://super.abril.com.br/saude/estudo-mostra-que-fluor-da-pasta-de-dentes-e-sim-essencial-contra-carie/

Pílulas de Química

Pimenta malagueta? Um bocadinho mais

Por Hélio Messeder

Você gosta de comida apimentada? A pimenta é uma marca registrada de diversas cozinhas no mundo, como é o caso do meu “país” chamado Bahia. A fama e o uso desse fruto picante vêm de longe e essa especiaria já teve muita importância na época que não se tinha geladeira, uma vez que a pimenta do reino funcionava como antioxidante, ajudando a evitar que os alimentos estragassem facilmente, e para disfarçar o cheiro e gosto rançoso de algumas comidas que não estavam tão boas para o consumo assim. Há mais de 25 espécies de pimenta e por isso variados formatos, gostos e, claro ardências. Mas por que a pimenta arde? O que podemos fazer para a pimenta parar de arder? É sobre isso que falaremos hoje.

Há basicamente duas substâncias que fazem as pimentas arderem. Na pimenta do reino branca ou preta é a piperina e na outras formas que conhecemos de pimenta ( malagueta, dedo de moça, amarela, pimenta-da-Jamaica) é a capsaicina. A quantidade de capsaicina presente no fruto é que diz se a pimenta arde ou não. Diferente do que costumam pensar, a maior parte das substâncias picantes não estão na semente, mas na placenta do fruto (aquela parte branca, onde os caroços ficam grudados). Quando a placenta é rompida pela faca, os grãos absorvem a substância que fará você colocar fogo pelas ventas.

Brincadeiras à parte, precisamos explicar por que a pimenta arde tanto. A capsaicina e a piperina não têm cheiro e nem são detectadas pelo nosso nariz e poderiam passar despercebidas na comida, se não fosse o caso delas estimularem terminais nervosos do nosso corpo ( especialmente na região da boca, nariz e olhos) transmitindo a sensação de quente e dor ao cérebro. É sensacional, porque a substância ardente ativa um receptor que deveria funcionar quando coisas com 43o C atingissem a nossa boca. Ou seja, a substância entra na sua boca, olhos ou nariz e engana seu cérebro. É uma Fake News de quentura e dor. “É fogo que arde sem se ver. É dor que desatina sem doer’.

E por que continuamos comendo essa substância enganadora e que nos faz sofrer? Além da capsaicina e piperina, a pimenta tem um conjunto de outros sabores complexos que marcam o sabor do alimento, contribuindo para uma comida mais saborosa. Além disso, o nosso corpo produz endorfina como resposta à dor. Quanto mais forte a pimenta, maior a dor e maior o prazer posterior relacionado aos traços de endorfina liberados no seu corpo. A pimenta te deu onda e você nem sabia. “É um contentamento descontente”.

Mas como eu tiro essa pimenta de mim? Como faço para tirar essa dor da minha língua? Por conta do hábito, quando sentimos algo quente corremos logo para beber água. A química ri toda vez que você corre para a geladeira. A sensação de quente na sua boca é real, mas o motivo não é algo quente que precisa ser esfriado. Água gelada não vai ajudar muito. O que você precisa é remover a substância dos seus receptores e tanto a capsaicina quanto a piperina não são muito solúveis em água. O ideal é você colocar algo que ajude a solubilizar e leve a substância de uma vez por todas para longe das suas terminações nervosas. Coisas com álcool podem ser excelentes, pois conseguem dissolver essas substâncias. Os destilados são os melhores, pois a quantidade de álcool é elevada. Cachaça ajuda mesmo a se livrar da pimenta ( Tá rindo, pois achou uma desculpa cientifica para beber, como se você precisasse)

Mas se você é menor de idade ou não pode beber por algum motivo ou a pimenta caiu no seus olhos, o leite é uma opção excelente. A proteína do leite envolve as substâncias picantes da pimenta e as leva embora com facilidade. Funciona como um “ detergente” de pimenta. A caseína presente no leite e no iogurte são verdadeiros bálsamos para quem está em crise com a pimenta. Comer pão também pode ser excelente, pois ele absorve as substâncias da sua língua e o ardor diminui.

Acabamos esse papo apimentado por hoje. Semana que vem tem mais uma dose química concentrada para vocês!

Referências

CORRÊA, Thiago Henrique Barnabé et al. TEMPEROS & CONDIMENTOS: UMA “PITADA” INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DE QUÍMICA. Ensino, Saude e Ambiente, v. 9, n. 3, 201

LE COUTEUR, Penny. Os botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história. Zahar, 2006

LIMA, Judieldo de Morais et al. Caracterização de frutos de espécies de pimentas produzidas na região do Cariri paraibano. Revista Brasileira de Gestão Ambiental e Sustentabilidade, v. 5, n. 9, p. 239-247, 2018.

WOLKE, Robert L. O Que Einstein disse a seu cozinheiro 2. Zahar, 2010.

WOLKE, Robert L. O que Einstein disse a seu cozinheiro: A ciência na cozinha (inclui receitas). Zahar, 2002.

LIMA, Judieldo de Morais et al. Caracterização de frutos de espécies de pimentas produzidas na região do Cariri paraibano.

Revista Brasileira de Gestão Ambiental e Sustentabilidade, v. 5, n. 9, p. 239-247, 2018.

https://escolakids.uol.com.br/…/por-que-boca-arde-quando-co…

http://www.ebc.com.br/…/voce-s…/2015/04/por-que-pimenta-arde

Pílulas de Química

Por Hélio Messeder

Reprodução: internet

Com ou sem glúten?

Indo a loja de produtos “saudáveis” não raro eu costumo ver escrito em quase todos os pacotes: “Sem glúten” ou na versão mais gourmetizada: “Glúten Free”. A farinha de trigo branca (rica em glúten) é vilanizada e, pelo modo que tenho visto, certamente apresenta poderes piores que o de Thanos e do Rei da noite juntos. O Glúten seria a Nazaré Tedesco das comidas. A Paola Bracho das dietas. Evitar o glúten deixaria você magro e saudável. Mas sabemos mesmo o que é o glúten? O glúten é uma rede proteica composta por gliadina e a gluteína que formam uma mistura viscosa ao absorver água. O glúten está presente no trigo, no centeio, na cevada às vezes na aveia (quando cultivada/processada perto de plantações de trigo). Essa rede garante a elasticidade de diversos alimentos, como por exemplo o pão, o macarrão e os diversos bolos. O objetivo do padeiro ao sovar a massa é fazer redes de glúten capazes de aprisionar o CO2 liberado e fazer a massa crescer. O glúten é a cola capaz de dar maciez e elasticidade aos diversos tipos de massas/pães/biscoitos presentes na nossa dieta.

É importante destacar que o glúten não é uma substância fabricada pela indústria para acabar com sua saúde, como por vezes circulam nas corretes de Whatsapp, sua matéria prima já está presente nos grãos. Mas e o glúten faz mal mesmo? Uma dieta restrita em glúten emagrece? Não há nenhum estudo que afirme que sujeitos saudáveis experimentem qualquer benefício de uma dieta livre de glúten. Claro que há pessoas que são portadores da doença celíaca e sofrem inflamação intestinal com a presença do glúten, há também pessoas que, apesar de não serem celíacas, sofrem com alguma sensibilidade ao glúten, assim não há duvidas que esses grupos devem evitar e/ou suspender o glúten com orientação médica. No entanto, isso não vale para a população em geral.

Quanto ao emagrecimento, dietas livres de glúten podem emagrecer, mas não por conta do glúten. Pense comigo: Se você tira pão, bolo, massa, biscoito da sua dieta e diminui assim a ingestão de carboidratos, não é provável que você perca peso? Ou seja, não é tirar o glúten que te emagrece é a redução de carboidratos. O glúten levando fama sem deitar na cama A compreensão sobre o que estamos falando/fazendo ajuda bastante na hora de fazemos nossas escolhas e eu não estou falando isso apenas para o glúten! Se você tiver um tema que você gostaria que a pílula tratasse deixa nos comentários. Curta e compartilha nossa página.

Não esquecemos a pílula sobre pimenta! Na próxima semana vamos apimentar isso aqui, Taokay?

Referência:

http://sban.cloudpainel.com.br/…/DeclaraAAo-de-Posicionamen… – acessado em 21/02/18

WOLKE, Robert L. O que Einstein disse a seu cozinheiro: A ciência na cozinha (inclui receitas). Zahar, 2002.

DA COSTA, Maria das Graças et al. Qualidade tecnológica de grãos e farinhas de trigo nacionais e importados. Ciência e Tecnologia de Alimentos, v. 28, n. 1, 2008.

SCHEUER, Patrícia Matos et al. Trigo: características e utilização na panificação. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, v. 13, n. 2, p. 211-222, 2011.

https://saude.abril.com.br/…/10-perguntas-sobre-o-gluten-e…/ https://www.significados.com.br/gluten/

Pílula de Química especial

Por Hélio Messeder

Foto: Noilton Pereira

Bolsonaro sabe a fórmula da água?

Eu duvido. A gente pode achar que saber a fórmula da água é repetir H.2.O. Pronto. Permita-me discordar do presidente

Saber a fórmula da água é conseguir olhar para essa representação e reconhecer que nela se encontra a partícula formadora de um recurso natural do planeta que não está disponível para todos. Tá sendo privatizado

Foto: Noilto Pereira

É reconhecer que tem H2O na lágrima da mulher preta que chora por seu filho morto.E chorar junto com ela. E não aceitar. E lutar para mudar isso

É saber que o conjunto de moléculas de água que não chega no sertão, tem relação com a falta de políticas publicas e não com os limites naturais que nós já fizemos recuar.

Noilton Pereira

Saber a a formula da água é reconhecer que essa substância está presente na composição de uma porção de medicamentos que não chegam nos postos de saúde, por falta de uma política que valorize o SUS

Saber a fórmula da água é saber que esse liquido corre nas nossas veias e compõe o sangue. Sangue derramado todo dia por uma galera que insiste em lutar

Caro Bolsonaro, quem sabia, de fato, a fórmula da água estava lá para lutar. Quem não sabia,estava lutando pelo direito de saber. Lutava por uma educação que não ensina “apenas” a formula da água ou regra de três, mas a humanidade encarnada e as contradições em cada um desses conceitos

Noilton Pereira

A gente sabe a fórmula da água. Mais do que você.Tem molécula H2O tá na saliva que a gente não consegue engolir quando gritamos:” A nossa luta unificou, é estudante junto com trabalhador”

Eu não ensino meus alunos a recitarem H.2.O. Eu ensino o que essa representação significa para formar humanidade!

Pílulas de Química

Você já recebeu o WhatsApp da Margarina?

Por Hélio Messeder

Receber um monte de mensagens pelo WhatsApp é algo super comum. Gatinhos dando bom dia, mensagens de autoajuda e, claro, aquela planta milagrosa que cura câncer e dor de dente e serve para calvice, permeiam os grupos silenciados de todos nós. Outro dia recebi uma mensagem dessas e o assunto da vez era a margarina sendo comparada com a manteiga. Não reproduzirei todo o texto aqui porque ele é muito grande, mas copiei alguns trechos que são interessantes

1-      A margarina foi originalmente criada e fabricada para engordar perus. Porém, quando os perus começaram a morrer por causa dela, os empresários que tinham investido na pesquisa dela, buscaram uma utilização alternativa que lhes permitisse, no mínimo, recuperar o investimento

2-        A margarina está a apenas uma molécula de ser… PLÁSTICO. Ela possui 27 ingredientes que existem na… TINTA de pintar.

3-      A margarina não apodrece, não tem decomposição ou alteração no cheiro (como os alimentos normais); 3.º Não cria bolor. Nada se desenvolve ou cresce nela; Mesmo largada á semanas num lugar qualquer; Ou seja, nem as moscas nem os mais pequenos microrganismos se interessam pela margarina, pois; Não há nada de bom nela.

Manteiga seria melhor que a Margarina, dizem os autores desconhecidos que passam informações que se multiplicam como pragas no Zap Zap

Comecemos então pelo começo. A margarina surgiu na França em um concurso feito por Napoleão III para encontrar um substituto da manteiga, já que o país estava em crise. O vencendor foi o químico Hippolyte que fez uma pasta a base de gordura de boi. A pasta  ganhou o nome de margarina que vem do grego margarites e significa pérola devido à sua cor esbranquicada. Não teve perus alimentados nessa história. Talvez para o próximo natal seja uma ideia. Eu fico sempre curioso para saber quem inventou essa fake news

Hoje as margarinas são feitas de óleos vegetais que passam por um processo de hidrogenação. Ao adicionarmos alguns átomos de hidrogênio na estrutura das moléculas que compões os óleos, elas conseguem se aproximar mais e por isso dão o caráter mais sólido (cremoso) da margarina.  Ocorre que ao hidrogenar esses óleos, o processo forma as famosas e indesejadas gorduras trans que são apontadas como problemáticas para a saúde. Hoje já existe na indústria um procedimento que reduz e quase zera a quantidade de gordura trans nas margarinas ( chama-se interesterificação química para os íntimos).  Dá uma chegada no rótulo.

Como podemos ver, a margarina é feita a partir de óleo e dizer que ela está a uma molécula de ser um plástico é no mínimo engraçado. A margarina é formada de triglicerídeos que nem podem ser considerados macromoléulas como os plásticos (dentro dessa palavra cabe tanta coisa, mas isso fica para outra hora). Além do mais, na química dizer que algo está uma molécula de distância não significa nada, veja a água (H2O) está a 1 átomo de distância da água oxigenada (H2O2) e do ácido sulfídrico (H2S  gás tóxico e irritante) e as propriedades são completamente diferentes tanto que você não pode fazer seu banho de lua com ácido sulfídrico e nem fazer uns bons drinks com água oxigenada. Precisamos entender que uma estrutura com um átomo diferente ou mesmo com os mesmos átomos arrumados de forma diferente terão propriedades DIFERENTES.  Definitivamente a margarina não tem nenhuma relação com a “tinta de pintar”

Por fim, é claro que a margarina apodrece, inclusive você deve olhar a data de validade do produto. Mas a manteiga, de fato, apodrece mais rápido. Isso acontece porque a margarina é feita apenas de óleo hidrogenado, enquanto a manteiga é feita com creme do leite batido formando uma emulsão. Assim, a manteiga é basicamente feita de gordura saturada e água. A presença de água na manteiga facilita a proliferação de fungos e bactérias e a produção de ranço decorrente da reação da água com a gordura. Por isso, e só por isso, a manteiga pode estragar mais rápido e não porque a margarina é um produto feito no acidente nuclear de Chernobil

No campo da saúde, estudos mostram que não há diferença em termos de colesterol para usos moderados de manteiga ou margarina. O sabor e o custo terminam sendo determinantes para a escolha. Eu mesmo prefiro manteiga (principalmente a de garrafa)

Na semana que vem vamos falar de pimenta. Água é mesmo a melhor bebida quando estamos sentindo o arder da pimenta?  O que tem na pimenta que faz ela arder?

Referências:

Mensagem original da doideira da margarina: https://m.facebook.com/permalink.php?story_fbid=1150137878380431&id=310167222377505

Outras pessoas que já fizeram a desconstrução desse texto:

https://g1.globo.com/e-ou-nao-e/noticia/margarina-foi-criada-para-alimentar-perus-diminui-colesterol-bom-veja-o-que-e-verdade-e-o-que-nao-e.ghtml

Referências usadas

LE COUTEUR, Penny. Os botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história. Zahar, 2006

WOLKE, Robert L. O Que Einstein disse a seu cozinheiro 2. Zahar, 2010.

WOLKE, Robert L. O que Einstein disse a seu cozinheiro: A ciência na cozinha (inclui receitas). Zahar, 2002.

RIBEIRO, Ana Paula Badan et al. Interesterificação química: alternativa para obtenção de gorduras zero trans. Química Nova, 2007.

ROQUE, Nidia Franca. Substâncias orgânicas: estrutura e propriedades. Edusp, 2011.

https://brasilescola.uol.com.br/quimica/manteiga-fora-ou-dentro-geladeira.htm

http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/tecnologia_de_alimentos/arvore/CONT000girl7f3902wx5ok05vadr1ty2i4zd.html

Pílula Química

Tomai, todos, e bebei: O vinho em questão

Reprodução:Internet

Hélio Messeder

Tão famoso quanto o chocolate, o vinho é uma bebida de destaque nesse feriado católico chamado Semana Santa. Mas como é feito o vinho? O que a química tem a nos dizer sobre essa bebida?

O processo de fabricação do vinho se dá a partir da fermentação alcóolica da uva. Fermentar para fazer vinho nada mais é que deixar que fungos do bem (neste caso as leveduras)  transformem o açúcar da uva em etanol. Além do etanol, a fermentação gera calor, gás carbônico e outros subprodutos importantíssimos para o sabor

Fazer um bom vinho é uma arte. Depende da espécie da uva, do tipo de colheita, do modo que ela foi prensada, do tempo, da levedura, do barril que foi armazenado e, claro, do tempo em que esse processo aconteceu, da quantidade de açúcar que tinha na uva,  e da quantidade de açúcar que vai fermentar, acidez e muitos outros parâmetros (Ufa! Pense nisso antes de desperdiçar uma garrafa de vinho). A fabricação de vinho é algo que precisa mesmo de paciência, já que esse processo de fermentação precisa ser lento, controlado para garantir que toda a complexidade de sabor seja mantida.

Reprodução:Internet

A diferença de um vinho vermelho para um vinho branco não está necessariamente no tipo de uva. O vinho branco pode ser feito com uvas brancas (verdes) ou tintas (roxas). No caso de ser feito com uvas tintas, separa-se a casca do suco antes do início da fermentação. No vinho tinto, a separação da casca só acontece depois que o processo de fermentar, uma vez que quanto mais tempo com a casca, maior a coloração arroxeada. A cor do vinho mudará completamente o seu sabor e sua explosão de sabores na boca e suas possibilidades de harmonização com diferentes tipos de alimento (harmonização de sabores é um papo para outra pílula)

O oxigênio é o grande inimigo do vinho. Ao reagir com o oxigênio do ar, as substâncias presentes nessa bebida começam a degradar e o vinho começa a mudar de sabor. Para alguns especialistas essa mudança é interessante, mas ela só deve começar a acontecerá hora que a garrafa for aberta e para o liquido que foi para a taça. Para minimizar o processo de oxidação alguns cuidados devem ser tomados com seu vinho:

1-    A garrafa deve ser armazenada na horizontal. Desse modo o vinho molha a rolha e faz uma vedação eficiente que impede que o oxigênio entre e acabe com sua uva fermentada

2-    Garrafas escuras e colocadas em lugares escuros. A luz ultravioleta degrada uma série de substâncias presentes no vinho. Não faz sentido esperar tanto tempo e deixar o sol acabar com sua bebida.

3-    Temperatura adequada. Temperaturas muito altas favorecerão um vinho degradar e azedar. Temperatura ideal de 12 a 14 OC

Por fim, é preciso dizer que é muito comum na semana santa (Ok, nos outros dias também) as visitas derramarem vinho na toalha. Uma mancha difícil de tirar, mas que a química pode ajudar. Em casos como esse, xingando mentalmente a visita, coloque papel toalha para absorver o excesso e depois faça uma mistura rápida meio a meio de detergente com água oxigenada e aplique sobre o tecido. Teste antes em um pedaço menor da toalha para evitar possíveis acidentes. A mancha deve sair depois da lavagem. Caso contrário, é aceitar e se esbaldar no resto do vinho que ainda restar na garrafa.

A transformação da uva em vinho não é lá um milagre, mas espero ter mostrado que beber esse néctar é um processo digno de ser apreciado e valorizado pelo tamanho de gente que trabalhou para que ele chegasse até seu copo de extrato ou taça de cristal

Beijos e até semana que vem.

Reprodução:Internet

Referências

WOLKE, Robert L. O que Einstein disse a seu cozinheiro: A ciência na cozinha (inclui receitas). Zahar, 2002.

WOLKE, Robert L. O Que Einstein disse a seu cozinheiro 2. Zahar, 2010.

https://falandoemvinhos.wordpress.com/2016/04/28/como-armazenar-corretamente-o-vinho-2/

https://blog.famigliavalduga.com.br/vinho-rose-entenda-mais-sobre-a-elaboracao-e-porque-sua-acidez-e-tao-importante/

https://blog.famigliavalduga.com.br/elaboracao-do-vinho-como-acontece-a-fermentacao-da-uva/

https://revistaadega.uol.com.br/artigo/saiba-como-o-vinho-e-produzido_10511.html