Como um dia de domingo

O mundo jogando todas as fichas contra a pandemia

 Foto: GREG BAKER / AFP

Por Gustavo Medeiros

Europa e China. Dia de semana, ruas desertas de um mês de fevereiro, estendendo este clima para março e suas águas marinhas revoltas. É primavera e as cerejeiras dão frutos no Japão atônito por suas vítimas, muitos deles idosos. Para além da pandemia, do número de infectados e da taxa de mortes registradas, o Covid 19 nos chama atenção para pequenos detalhes que parecem ser inúteis em um mundo onde tudo está em movimento.


Como um dia de domingo, chineses e europeus ficam em suas casas, sejam enclausurados ou em home-office. O corona nos convida a perceber o nosso lar e o que está dentro dele, as roupas que não usamos, a comida que não degustamos. Olhar para os cantos e ver a poeira do tempo que se acumula e entender o porquê a fresta da janela está suja.


Italianos buscam refúgio na arte, naquilo que salva em tempos difíceis e descobrem que a felicidade está nas coisas pequenas e que devemos compartilhar essa energia, que atenua as dores do mundo, mesmo que seja pelas claraboias, sacadas e janelas. É tempo de olhar para o outro, nem que seja a um metro de distância.

Nunca falamos tanto pelo tal “zap zap”, nunca multiplicamos e viralizamos (literalmente) informações. Como um dia de domingo, olhamos para a rua deserta, onde só se ouve o barulho do vento, que uiva solitário.

Do alto de nossos apartamentos e coberturas, vemos a cidade vazia, nua e sem movimento. Nos percebemos no silêncio e fazemos dele a nossa reflexão. Fomos forçados a parar para pensar, refletir por ( e de) dentro. Este é o momento de ouvir mais,pensar mais e acreditar, vai passar.

Por mais abraços (reais) em Suzy

Como a internet, por comoção ou ódio, desumaniza as pessoas

Foto – G1 (reprodução)

Por Gustavo Medeiros

Há quase duas semanas, o Fantástico exibiu um minidocumentario que contou com a participação de Drauzio Varella sobre a situação das pessoas trans nos presídios . Com uma experiência em trabalhos voluntários no sistema carcerário, o que lhe rendeu um livro, o médico clínico conversou com transexuais detentas,pessoas que, independente de sua condição, sofrem com a discriminação da sociedade.

Entre todas as histórias contadas durante a atração, está a de Suzy, presa há oito anos. Durante este período, a detenta não recebeu a visita de parentes, o que denota a invisibilidade da pessoa trans e a solidão entre as grades dos centros de detenção.

Entretanto, o que chamou a atenção no quadro foi um gesto simples, que parece perder a sua conotação em tempos pós modernos. Drauzio,ao final da conversa, abraçou a detenta, algo que fugiria do convencional se fosse feito por um jornalista. O ato em si causou diversas opiniões e movimentou as redes sociais,polarizando votos de ódio e comoções exacerbadas.

O abraço de Drauzio, destacado do contexto da atração, deu um ar de humanidade, esquecido na visceral idade das contendas que dividiu o país em dois lados. Entre a comoção a esquerda, o ódio irônico a direita e a indiferença, o Brasil paralelo das redes sociais perdeu o bom senso nas suas opiniões. Alias,neste submundo de mágoas verborrágicas que a internet se tornou, perdemos a sensibilidade compreensiva de olhar para o outro em sua integralidade, nos seus erros e nas suas dores.

Para por mais lenha na fogueira da polêmica vazia, uma fake news sobre a causa da prisão correu na internet, uma vez que nada foi dito. Dados oficiais mostram que a pratica do furto é responsável por grande parte das detenções de transgêneros.

Para motivos de esclarecimento, o foco maior da matéria é a invisibilidade da pessoa trans e a adequação do sistema carcerário a este público, algo que foi mostrado em alguns programas de tevê. Vale lembrar que, o transgênero,além da indiferença, é mal visto pelos outros presos em boa parte das detenções muito mais pela sua condição.

Pelas lentes da internet, Suzy se tornou uma referencia, quer seja uma vitima do sistema ou um monstro desenhado pelos incautos. Desumanizamos, com um só clique, pessoas com a maior facilidade. Criamos personagens e não refletimos sobre pessoas. Com as relações em rede, romantizamos e construímos narrativas fora da nossa realidade,longe do que vivemos ou sentimos.

Que possamos sim dar mais abraços reais e verdadeiros em Suzy e em outras tantas mulheres trans que passam despercebidas em nossas vidas, sejam nas celas das cadeias ou nas noites frias das vias públicas.

Tensões e hegemonia norteiam consequências do ataque no Oriente Médio

Governo Trump tira de cena o general Qasim Soleimani e gera atritos com o Irã

Ataque destruiu o carro onde estava o general da Guarda Revolucionária do Irã. Foto – Iraq Security Media

Por Gustavo Medeiros

Mal começou o ano de 2020 e os Estados Unidos já deu início a uma ofensiva no Oriente Médio. Na última quinta-feira (02), os norte americanos coordenaram um ataque contra o aeroporto de Bagdá, vitimando o general iraniano Qasem Soleimani, responsável pelas ações militares do Irã no exterior. Outras sete pessoas morreram na ação, que atingiu o terminal de cargas.

Soleimani tinha uma grande influência e prestígio entre os militares iranianos e, segundo o governo norte-americano, mata-lo era uma questão de defesa. Em entrevista, o secretário de estado Mike Pompeo alegou que, vivo, o general representava uma ameaça imediata.

Qasim Soleimani era um general influente entre os militares iranianos. Foto – Reprodução.

A ação do governo Trump foi retaliada pela Russia,aliada do Irã, China e França,países que, assim como os Estados Unidos, fazem parte do conselho de segurança da ONU. Estas nações alertaram sobre as consequências dos ataques e demonstraram a preocupação sobre a situação no Oriente Médio.

Assim como na comunidade internacional, no Irã a morte do general Soleimani gerou uma onda de reações negativas. A autoridade máxima do país, o aiatolá Ali Khamenei, em comunicado oficial, atribuiu o ataque à “gente mais cruel da terra” e pediu uma “dura vingança”. Iraque alegou que a ação foi uma ,”flagrante violação” a soberania do país.

O ataque ao aeroporto de Bagdá reacende a tensão entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio. Atualmente, os países estavam em uma coalizão, junto ao Iraque, contra a milícia Estado Islâmico e retomaram os territórios que estavam sob domínio do grupo terrorista.

Para a grande imprensa no mundo todo, a ação, além de intensificar as tensões no oriente, serviu de ponto para reavivar a hegemonia norte americana e a busca do controle sobre os poços de petróleo na região,uma vez que o Irã, em 2019, descobriu um campo de petróleo com capacidade de produção para 50 barris.

Para alguns analistas, o ataque significa a retomada do projeto pessoal de Donald Trump, uma vez que os americanos terão eleições presidenciais este ano,ou seja, o interesse de Trump é hegemônico. São dois “pês” que norteiam a relação norte americana na região, neste caso poder e petróleo.

Fonte – Ele País, Correio da Bahia e Revista Fórum

A Greve da PM e a batalha declaratória pela oficialização da verdade

A guerra entre o poder estadual e os policiais grevistas ganha espaço nas mídias e nas redes

Arte – Gustavo Medeiros

Por Gustavo Medeiros

Desde a tarde da última terça (08/10), a Bahia vive em um estado de batalha declaratória para definir qual verdade prevalece. De um lado, o campo argumentativo de um grupo com 300 policiais, que começou a peleja, usando a sua própria verdade para convencer a população de que a greve existe e o movimento tem forte adesão. Do outro, e não menos importante, está o estado e seu aparato oficial, que, tenta, a qualquer custo, manter a normalidade.

A força desta guerra de declarações está no constante uso das redes sociais e dos veículos de massa, estes últimos, por sua vez, parecem ter comprado a briga do governador e do comandante geral da Policia Militar (PM-BA), dando espaço a uma posição que, aos olhos mais profundos, aparenta, em linhas mais agudas, ter mais consistência e força frente ao histórico questionável do líder maior deste movimento, o deputado estadual Marco Prisco (PSC).

Por sua vez, o movimento paredista possui os canais do Whats App, velhas conhecidas fontes de fake news e outras bobagens, que viralizam informações, espalham vídeos e tentam impressionar por meio do medo e do poder do ato de persuadir, que está mais próximo da população, algo que ainda nos traz efeitos colaterais.

Em tempos de verdades relativas e argumentos carregados de tons belicosos, todo bom senso é necessário. Entre a normalidade, tentada com todas as forças pelo poder estadual, e o uso da coação, impetrado por aqueles que tem “relativamente” o poder do “Zap Zap”, quem sofre com todo este clima de confronto é a população, que fica a mercê da truculência do aparato policial e dos saques â lojas e outros estabelecimentos.

Nesta batalha declaratória, a verdade “verdadeira” e “oficiosa” é artigo de luxo para os dotados de bom senso.

O Brasil atual que respira intolerância

Viver em um país dominado pelas relações de ódio se tornou complicado

Imagem – Gazeta On Line

Por Gustavo Medeiros

Está difícil falar de política no Brasil. Difícil e complicado respirar política, sem se enervar nos brios, na arte do orgulho ferido, no sentimento de demagogia plena e na subjetividade em ver a realidade que nos cerca.

Para quem está de fora, sentir essa atmosfera desfavorável, em um país diverso e tropical como o nosso, atualmente é um risco. Prova disso é a banda Dead Kennedys, que faria uma turnê pelo país em maio,mas cancelou por conta de uma peça publicitária que divulgou seus shows refletindo a realidade atual por aqui. O cartunista Cristiano Suarez pesou a mão e não filtrou a situação que vivemos com tintas reais. Criou polêmica e “colocou o público em risco”, segundo os integrantes da banda de punk rock. Nesse caso, quem pôs a sua conta “em risco” foi o Ratos de Porão, que acolheu a arte.

Viver no Brasil de hoje é um risco assumido. É como acender um fósforo perto de um barril de pólvora, ou andar em um campo minado sem botas de proteção. Isso reflete a efervescência das intolerâncias que sempre foram varridas para debaixo do tapete. A chance de você falar o que sente ou pensa, sem ser julgado ou elogiado nas redes sociais, é praticamente nula. Vivíamos em uma tolerância de aparências, onde aceitávamos as opiniões do outro de soslaio, como se houvesse uma obrigação.

Foto- Mercado Popular

O risco em emitir opiniões,juízos de valor e reflexões próprias, na realidade e no simulacro que a internet representa, significa ganhar algozes, pessoas que apontam o dedo em suas feridas e mazelas por diversos motivos, sejam eles pessoais ou não. É um reflexo de um país em ebulição, que mostrou a sua cara e saiu do armário, da canastra onde todas as sombras foram descobertas .

O Brasil de hoje requer cautela para não pisar em ovos. Estamos a flor da pele, do calor pelo ódio exacerbado e potencializado nas redes sociais. O país, que já teve em si,no meio de tantas mortes como pano de fundo, a alegria e a harmonia de tantos carnavais, da mulata que requebra e do malandro sorridente, hoje tentar sobreviver, de forma resiliente,as ameaças declaradas de morte. O meu inimigo, aquele que pensa e respira diferente de mim, precisa ser aniquilado de todas as formas e isso está enraizado nas atitudes , no “plano de destruição” do estado, promovido pelo atual presidente.

Hoje não dá mais para esconder que o ódio abriu caminhos, explorou e ergueu cidades, extraiu sangue e suor, torturando dezenas de milhares nos seus pelourinhos e porões. Infelizmente, o Brasil se constituiu assim, com plena desigualdade social e na coluna do meio, a divisão pelo ódio.

Se atualmente, falar de política é uma tarefa complicada, imagine para quem tem o germe do ódio plantado em si?Diante deste cenário triste, que nos convida a guardar serenidade,imagine se olhar diante de tantos fatos que nos moldaram durante cinco seculos??

Se falar de política, de forma equilibrada, se tornou um risco, então respirar o Brasil atual se tornou complicado. Se o Dead Kennedys arregou, ficou com medo do que somos, de fato, imagine quem mora no exterior e gostaria de conhecer esse país, o que sentiria de forma mais aprofundada? Fica a reflexão no ar.

Um convite à reflexão. Nos dias de hoje, com quem andaria Jesus?

O MMQI faz uma proposta à você, caro leitor, durante a Semana Santa

Imagem- Reprodução/Internet

Por Gustavo Medeiros

O que vem a cabeça quando se fala de Semana Santa? Entre a dor e o martírio vivido por Jesus Cristo estão os nossos dilemas, a capacidade de se colocar no lugar dele nos instantes da sua condenação, crucificação, morte e ressurreição.

Fazendo uma leitura entre a época em que o Cristo viveu e a atual, vimos que não mudamos tanto nos valores e nas atitudes frente a certas situações que requer uma flexibilidade nos costumes. Continuamos nos apegando ao machismo como tábua de salvação, ao pieguismo religioso como elemento de manutenção da ordem social e ainda não nos livramos da capacidade de assumir a individualidade perante o mundo e as coisas ao nosso redor.

Jesus veio justamente no momento em que as situações pediam uma mudança de mentalidade e comportamento das sociedades dominadas pelo Império Romano, que ditava a ordem e os costumes na época.O Cristo preconizava a ruptura por meio de suas posturas desafiadoras, ao arrebanhar para si os relegados sociais como as prostitutas, os miseráveis, as adúlteras, os doentes, tudo aquilo que era um expurgo da sociedade na época.

Passagens como as da mulher adúltera mostram a falta de capacidade que temos em julgar o outro em seus defeitos e escolhas. Então, seguir os passos do Cristo é se despir da velha roupa “passadista” que ainda vestimos, isso requer renúncia. E tudo se resume a um pedido, cercado de prerrogativas que não foram implícitas pelo rabi da Galileia, basta apenas sentir o seu amor pela humanidade.

Afinal de contas, com quem o Cristo andaria?

Imagine nos dias de hoje o Jesus Cristo em meio a tanta tecnologia, celulares com acesso fácil às redes sociais, meios de transporte rápidos e eficientes se comparados a sua época? Assim como a seu tempo, optaria entre aqueles que, de qualquer forma, estão alijados dos espaços de poder e de seu lugar de fala.

Ele andaria ao lado dos gays, das lésbicas, dos drogados,dos travestis, dos jovens pobres das periferias,das pessoas com deficiência, das vítimas das guerras e da opressão. Condenaria o Estado Islâmico, o Talibã, chamaria Trump, Bolsonaro, Duterte e seus similares de Raça de Víboras ou, se muito, canalhas. Abraçaria as donas de casa, as mulheres espancadas por seus maridos, envolveria com o seu amor as crianças vítimas da pedofilia e do trabalho escravo. Além do mais, não teria cerimônia para falar do quanto é nocivo viver triste ou com depressão, este mal que aflige a sociedade mundial neste século.

Imagem-Facebook

Diante deste cenário, comparado a Galileia do Século I, será possível imaginar que Jesus está voltando, assim como as igrejas neopentecostais preconizam? Muito provável que não. Para falar a verdade, a essência dos ensinamentos dele, tão atuais para os dias de hoje, está voltando e estamos chocados, pois ainda não colocamos em prática o sentimento de solidariedade ao ver uma nação africana devassada por um ciclone.

Em meio a isso tudo, Jesus volta por meio dos seus ensinamentos e exige que sejamos mais humanos,pois,acreditem, ainda não somos nem a milésima proporção do modelo de humano perfeito que o próprio galileu foi.

O que consola, em meio a um cenário preocupante dos dias e hoje é que estamos caminhando, conscientes que muito há por fazer. Da mesma forma que existem tantos problemas, há soluções e pessoas, escondidas dos holofotes de tragédias e perversidades produzidas pela mão do homem, que praticam o bem em suas feições práticas e simples. São elas que salvam o mundo a cada instante.

É com o pouco que essas pessoas fazem, que o bem se multiplica e nem precisa julgar de onde vem e a que religião pertence. Os ensinamentos do Cristo não possuem autoria religiosa,pois são,por si só, e para efeitos de evolução, um legado universal.