A Greve da PM e a batalha declaratória pela oficialização da verdade

A guerra entre o poder estadual e os policiais grevistas ganha espaço nas mídias e nas redes

Arte – Gustavo Medeiros

Por Gustavo Medeiros

Desde a tarde da última terça (08/10), a Bahia vive em um estado de batalha declaratória para definir qual verdade prevalece. De um lado, o campo argumentativo de um grupo com 300 policiais, que começou a peleja, usando a sua própria verdade para convencer a população de que a greve existe e o movimento tem forte adesão. Do outro, e não menos importante, está o estado e seu aparato oficial, que, tenta, a qualquer custo, manter a normalidade.

A força desta guerra de declarações está no constante uso das redes sociais e dos veículos de massa, estes últimos, por sua vez, parecem ter comprado a briga do governador e do comandante geral da Policia Militar (PM-BA), dando espaço a uma posição que, aos olhos mais profundos, aparenta, em linhas mais agudas, ter mais consistência e força frente ao histórico questionável do líder maior deste movimento, o deputado estadual Marco Prisco (PSC).

Por sua vez, o movimento paredista possui os canais do Whats App, velhas conhecidas fontes de fake news e outras bobagens, que viralizam informações, espalham vídeos e tentam impressionar por meio do medo e do poder do ato de persuadir, que está mais próximo da população, algo que ainda nos traz efeitos colaterais.

Em tempos de verdades relativas e argumentos carregados de tons belicosos, todo bom senso é necessário. Entre a normalidade, tentada com todas as forças pelo poder estadual, e o uso da coação, impetrado por aqueles que tem “relativamente” o poder do “Zap Zap”, quem sofre com todo este clima de confronto é a população, que fica a mercê da truculência do aparato policial e dos saques â lojas e outros estabelecimentos.

Nesta batalha declaratória, a verdade “verdadeira” e “oficiosa” é artigo de luxo para os dotados de bom senso.

O Brasil atual que respira intolerância

Viver em um país dominado pelas relações de ódio se tornou complicado

Imagem – Gazeta On Line

Por Gustavo Medeiros

Está difícil falar de política no Brasil. Difícil e complicado respirar política, sem se enervar nos brios, na arte do orgulho ferido, no sentimento de demagogia plena e na subjetividade em ver a realidade que nos cerca.

Para quem está de fora, sentir essa atmosfera desfavorável, em um país diverso e tropical como o nosso, atualmente é um risco. Prova disso é a banda Dead Kennedys, que faria uma turnê pelo país em maio,mas cancelou por conta de uma peça publicitária que divulgou seus shows refletindo a realidade atual por aqui. O cartunista Cristiano Suarez pesou a mão e não filtrou a situação que vivemos com tintas reais. Criou polêmica e “colocou o público em risco”, segundo os integrantes da banda de punk rock. Nesse caso, quem pôs a sua conta “em risco” foi o Ratos de Porão, que acolheu a arte.

Viver no Brasil de hoje é um risco assumido. É como acender um fósforo perto de um barril de pólvora, ou andar em um campo minado sem botas de proteção. Isso reflete a efervescência das intolerâncias que sempre foram varridas para debaixo do tapete. A chance de você falar o que sente ou pensa, sem ser julgado ou elogiado nas redes sociais, é praticamente nula. Vivíamos em uma tolerância de aparências, onde aceitávamos as opiniões do outro de soslaio, como se houvesse uma obrigação.

Foto- Mercado Popular

O risco em emitir opiniões,juízos de valor e reflexões próprias, na realidade e no simulacro que a internet representa, significa ganhar algozes, pessoas que apontam o dedo em suas feridas e mazelas por diversos motivos, sejam eles pessoais ou não. É um reflexo de um país em ebulição, que mostrou a sua cara e saiu do armário, da canastra onde todas as sombras foram descobertas .

O Brasil de hoje requer cautela para não pisar em ovos. Estamos a flor da pele, do calor pelo ódio exacerbado e potencializado nas redes sociais. O país, que já teve em si,no meio de tantas mortes como pano de fundo, a alegria e a harmonia de tantos carnavais, da mulata que requebra e do malandro sorridente, hoje tentar sobreviver, de forma resiliente,as ameaças declaradas de morte. O meu inimigo, aquele que pensa e respira diferente de mim, precisa ser aniquilado de todas as formas e isso está enraizado nas atitudes , no “plano de destruição” do estado, promovido pelo atual presidente.

Hoje não dá mais para esconder que o ódio abriu caminhos, explorou e ergueu cidades, extraiu sangue e suor, torturando dezenas de milhares nos seus pelourinhos e porões. Infelizmente, o Brasil se constituiu assim, com plena desigualdade social e na coluna do meio, a divisão pelo ódio.

Se atualmente, falar de política é uma tarefa complicada, imagine para quem tem o germe do ódio plantado em si?Diante deste cenário triste, que nos convida a guardar serenidade,imagine se olhar diante de tantos fatos que nos moldaram durante cinco seculos??

Se falar de política, de forma equilibrada, se tornou um risco, então respirar o Brasil atual se tornou complicado. Se o Dead Kennedys arregou, ficou com medo do que somos, de fato, imagine quem mora no exterior e gostaria de conhecer esse país, o que sentiria de forma mais aprofundada? Fica a reflexão no ar.

Um convite à reflexão. Nos dias de hoje, com quem andaria Jesus?

O MMQI faz uma proposta à você, caro leitor, durante a Semana Santa

Imagem- Reprodução/Internet

Por Gustavo Medeiros

O que vem a cabeça quando se fala de Semana Santa? Entre a dor e o martírio vivido por Jesus Cristo estão os nossos dilemas, a capacidade de se colocar no lugar dele nos instantes da sua condenação, crucificação, morte e ressurreição.

Fazendo uma leitura entre a época em que o Cristo viveu e a atual, vimos que não mudamos tanto nos valores e nas atitudes frente a certas situações que requer uma flexibilidade nos costumes. Continuamos nos apegando ao machismo como tábua de salvação, ao pieguismo religioso como elemento de manutenção da ordem social e ainda não nos livramos da capacidade de assumir a individualidade perante o mundo e as coisas ao nosso redor.

Jesus veio justamente no momento em que as situações pediam uma mudança de mentalidade e comportamento das sociedades dominadas pelo Império Romano, que ditava a ordem e os costumes na época.O Cristo preconizava a ruptura por meio de suas posturas desafiadoras, ao arrebanhar para si os relegados sociais como as prostitutas, os miseráveis, as adúlteras, os doentes, tudo aquilo que era um expurgo da sociedade na época.

Passagens como as da mulher adúltera mostram a falta de capacidade que temos em julgar o outro em seus defeitos e escolhas. Então, seguir os passos do Cristo é se despir da velha roupa “passadista” que ainda vestimos, isso requer renúncia. E tudo se resume a um pedido, cercado de prerrogativas que não foram implícitas pelo rabi da Galileia, basta apenas sentir o seu amor pela humanidade.

Afinal de contas, com quem o Cristo andaria?

Imagine nos dias de hoje o Jesus Cristo em meio a tanta tecnologia, celulares com acesso fácil às redes sociais, meios de transporte rápidos e eficientes se comparados a sua época? Assim como a seu tempo, optaria entre aqueles que, de qualquer forma, estão alijados dos espaços de poder e de seu lugar de fala.

Ele andaria ao lado dos gays, das lésbicas, dos drogados,dos travestis, dos jovens pobres das periferias,das pessoas com deficiência, das vítimas das guerras e da opressão. Condenaria o Estado Islâmico, o Talibã, chamaria Trump, Bolsonaro, Duterte e seus similares de Raça de Víboras ou, se muito, canalhas. Abraçaria as donas de casa, as mulheres espancadas por seus maridos, envolveria com o seu amor as crianças vítimas da pedofilia e do trabalho escravo. Além do mais, não teria cerimônia para falar do quanto é nocivo viver triste ou com depressão, este mal que aflige a sociedade mundial neste século.

Imagem-Facebook

Diante deste cenário, comparado a Galileia do Século I, será possível imaginar que Jesus está voltando, assim como as igrejas neopentecostais preconizam? Muito provável que não. Para falar a verdade, a essência dos ensinamentos dele, tão atuais para os dias de hoje, está voltando e estamos chocados, pois ainda não colocamos em prática o sentimento de solidariedade ao ver uma nação africana devassada por um ciclone.

Em meio a isso tudo, Jesus volta por meio dos seus ensinamentos e exige que sejamos mais humanos,pois,acreditem, ainda não somos nem a milésima proporção do modelo de humano perfeito que o próprio galileu foi.

O que consola, em meio a um cenário preocupante dos dias e hoje é que estamos caminhando, conscientes que muito há por fazer. Da mesma forma que existem tantos problemas, há soluções e pessoas, escondidas dos holofotes de tragédias e perversidades produzidas pela mão do homem, que praticam o bem em suas feições práticas e simples. São elas que salvam o mundo a cada instante.

É com o pouco que essas pessoas fazem, que o bem se multiplica e nem precisa julgar de onde vem e a que religião pertence. Os ensinamentos do Cristo não possuem autoria religiosa,pois são,por si só, e para efeitos de evolução, um legado universal.

Sinta Salvador em suas 470 versões

Cidade faz aniversário em meio a sensações e sentidos

Foto – Gustavo Medeiros

Por Gustavo Medeiros

Salvador é assim. É o sol de verão entrando no fim da primavera, é o calor no caldeirão cheio do azeite de dendê fumegando em fogo alto. É a cidade que respira ares de férias e de festa,na boca de mais um carnaval.
Alias, Salvador ensaia em ritmo de festa, se movimenta no batuque compassado de uma percussão dissonante. É a mesma cidade que esquenta, em meio ao concreto erguido verticalmente, dia após dia, sustentado por uma classe média que não tem nada de rica,mas se acha elite. São todos médios,medianos talvez…

Salvador é luta, é trabalho, é correria. É trajeto Cajazeiras-Centro, é maratona ônibus-metro, é trem-barco-onibus. As vezes é o isolamento de uma Ilha de Maré, em outras é uma ilha de prédios em Alphaville. As vezes é a brisa do mar de Itapuã, em outras a solidão dos condomínios de Stella.

Várias sensações em uma só cidade, que carrega em si vários sentimentos e profundas sensações. Do cansaço ao prazer, Salvador é sempre assim.