Cultura afro-brasileira e africana

Por Dani Isoàlà

A Formação do Candomblé no Brasil

Durante muitos séculos, o continente africano foi explorado e desestruturado culturalmente pelo avanço das grandes navegações e pela busca europeia de matérias-primas para o desenvolvimento industrial e tecnológico. Quando se fala sobre este processo de colonização, muitos dizem frases como “a culpa da escravidão foi do próprio negro que já faziam escravos lá na África”. Vamos entender como esse processo realmente funcionou na África?

O continente africano possui 53 países com línguas e tradições distintas. No período do século XVI, este continente e seus habitantes, em cada comunidade formada, tinha como visão de riqueza a terra. Os africanos sempre souberam que as riquezas do local onde viviam estava nas terras, principalmente aquelas que estivessem próximas de rio por garantir ao solo mais fertilidade.

Por esta razão, a luta por territórios sempre foi algo comum no continente africano. Como todo povo guerreiro, pois é essa a nossa descendência, era comum os conflitos territoriais dentro do próprio continente. Afinal, eram muitas comunidades próximas uma da outra, portanto, seria comum alianças e conflitos.

Quando uma comunidade de guerreiros perdiam a disputa pelo território, aquela se tornaria ser integrante da comunidade vencedora, ocorrendo uma relação servil. Isso é uma questão de domínio, não de escravização para o comércio. Então, não diz que a culpa é do próprio africano tá!!!?

Seguindo ao ponto principal: a formação do candomblé. Quando esses africanos: reis, rainhas, príncipes e princesas foram vendidos, escravizados e forçadamente trazidos para o Brasil, suas culturas e tradições vieram com eles, e isto inclui o culto aos òrìsàs. Quando eu falo culto aos òrìsàs, eu não falo candomblé. Diferente do que a maioria das pessoas pensam, o candomblé foi criado nas senzalas brasileiras.

O culto aos òrìsàs é o culto a divindades específicas de acordo com cada país africano. É como se fosse uma família espiritual, onde apenas os membros daquela família são cultuados. Por exemplo: Na Nigéria, as principais divindades cultuadas são Sàngó e Oyà, no estado de Oyo. Nesse local é cultuado apenas essas divindades. Porém, nas cidades de Ibadan e Ibara ocorre o culto apenas a Yemoja, conhecida no Brasil como Yemanjá.

O mesmo ocorre em Benim. Lá, é muito comum o culto as Dans (serpentes) e todas as divindades ligada a esta família chamada Dambirá.

Quando esses povos vieram do Benim (jeje), Nigéria (yorubano e nagô), Angola (banto), Congo (banto) e muitos outros países, a mistura se fez presente como tática europeia de impedir uma rebelião. Com isso, diversas famílias foram separadas e colocadas dentro dos navios com povos diferentes.

Essa mistura permitiu que na senzala os deuses de cada um fosse cultuado de forma sorrateira, discreta e às escondidas para que seu senhor não pudesse descobrir e assim ser castigado. Juntos, mesmo sendo de nações (comunidades) diferentes, os deuses africanos passaram a ser cultuados formando o que era chamado inicialmente de “batuque”. Isso deu origem ao que conhecemos hoje como candomblé.

Assim, surgem as formas de resistência à opressão do senhor de engenho e da cultura europeia, onde, em festas de santos católicos, os negros faziam uma pequena comemoração nas senzalas as suas divindades, utilizando a data comemorativa do catolicismo como camuflagem para a permanência de suas crenças.

Ora, como poderiam os africanos e africanas forçadamente trazidos realizar o culto às suas divindades de forma tranquila e serena se tudo que vinha deles era visto como inferior e negativo? Era preciso fazer o uso da cultura europeia, branca, para que suas tradições pudessem ser mantidas e seguidas mais adiante.

A beira dos rios e a região da mata também era utilizado como local de culto. O uso das irmandades também eram uma forma de cultuar suas divindades de forma camuflada. A perseguição aos cultos africanos era severa, o politeísmo africano havia sido colocado como algo diabólico e por isso não poderia ser tolerado em país colonizado. A língua por eles falada como o yorubá, o kibumdo, o umbundo, o banto, o fon ou èwé fon, eram tidas como aberrações.

Porém, apesar de toda a perseguição, a tradição religiosa se fez presente. A diferença estava na forma. Agora, ao invés do culto a divindades específicas, os patronos e famílias espirituais de cada grupo ou comunidade era cultuada por todos ali presente. As músicas cantadas eram sempre na língua dos africanos, de cada país existente, de cada raiz daquele òrìsà.: Assim surge o candomblé.

À partir do meado do século XIX, os candomblés passam a ser cultuados de forma mais aberta, porém, ainda discreta e disfarçada, pois o preconceito era muito grande e sem o alvará de liberação da casa a apreensão de atabaques e prisões de sacerdotes e sacerdotisas ocorreria na maior naturalidade.

Hoje somos mais fortes, mais resistentes. Porém lutamos sempre conta a demonização da nossa herança ancestral. Cultuando divindades de vários países africanos em uma só casa, usando cantigas no ritmo e na língua africana, mantendo em pé o que veio pelo mar aberto e se recriou na senzala.

Salvador e seu desenvolvimento – Como a cidade cresceu em seus 470 anos

Foto – Gustavo Medeiros

No dia 29 de março de 2019, a cidade de Salvador completou 470 anos de emancipação política. Foi exatamente nesta data que a cidade deixou de ser considerada vila para conquistar a categoria de cidade. No ano de 1763 ela ficou conhecida como a primeira capital da província baiana, com o nome de “São Salvador da Bahia de Todos os Santos”.

Quando se monta historicamente a formação da cidade de Salvador e do Estado da Bahia, é importante lembrar a história de Caramuru, o primeiro português a chegar aqui. Porém, a nossa cidade é muito mais do que isso. Não podemos esquecer da influência intensa na nossa cultura impérios africanos que foram escravizados e indígenas que já que se encontravam aqui.

Uma forma simples de perceber o quanto esses povos nos influenciaram no cotidiano está no nome de ruas e bairros com grande quantidade de negros, que em outrora foram quilombos ou formação de comunidades. Como por exemplo a região de Água de Meninos uma nascente onde muitas crianças costumavam se banhar, gerando uma bica pública no local.

A Ladeira da Preguiça, era uma região de muito transporte de cargas puxadas por africanos que, infelizmente foram escravizados. O cansaço dado o tipo de trabalho forçado a qual se encontrava trazia o cansaço físico como resposta, mas, para muitos senhores, o cansaço era uma demonstração de preguiça e por isso ganhou este nome.

O bairro de Tororó é um nome de origem indígena. Esta palavra significa água correte, rio barulhento e muitos indígenas viviam naquela região. Como exemplo desta herança temos um grupo afro chamado Apaxes do Tororó.

O bairro do Curuzu foi uma região de mineração onde muitos africanos escravizados trabalharam. Esta palavra, Curuzu, quer dizer dejetos, monte de cascalho de mineração. Este nome também faz alusão as comunidades surgidas de ex-escravos, africanos e seus descendentes que, após conseguir sua alforria, passaram a viver na região.

Muitos bairros da região tem a sua história de formação e nomes completamente diferentes do atual. A Rua da Forca chama-se assim porque no período colonial a rua servia de caminho para os prisioneiros condenados a forca em praça pública que se encontravam presos na Câmara de Vereadores

Nossa cidade tem muitas histórias, os bairros mais negros são o maior exemplo disso e por isso deve ser pesquisado. Na região após o Barbalho existe uma rua chamada Beco do Sirilo. Segundo os moradores mais antigos, seus avós contavam que a aquela região possuía uma espécie de mangue onde servia de alimentos e sustento para muitas famílias.

Nossa cidade é magnífica em sua historicidade. Portanto, parabéns Salvador e que suas histórias sejam sempre expostas para engrandecer o nosso saber.

O Sacrífico de animais e seu significado entendido pelo Supremo Tribunal Federal

Foto- Reprodução

Desde a antiguidade que o sacrifício de animais se faz presente, não só para processos ritualísticos, mas também para a alimentação de uma comunidade inteira. No dia 28 de março de 2019 chegou ao fim o processo que se encontrava no Supremo Tribunal Federal sobre a proibição do abate de animais no candomblé.

O processo foi aberto no Rio Grande do Sul pelo ex deputado federal Marcos Feliciano para proibir de forma constitucional o abate de animais nas religiões de matriz africana com a alegação de maus tratos e sofrimento para os animais. O Ministério Público do Rio Grande do Sul levou o projeto de Lei ao Supremo Tribunal Federal após o Tribunal de Justiça Estadual negar o pedido de inconstitucionalidade do abate em grupos religiosos, principalmente de matriz africana.

No mês de agosto de 2018 ocorreu o primeiro julgamento no Supremo Tribunal Federal. O processo de defesa das religiões de matriz africana foi realizado por Dr. Hédio Jr., ogan de candomblé e mais dois advogados também inseridos na religião. Após mostrarem a importância do abate de animais para alimentar toda a comunidade religiosa e próximas do terreiro, foi levantado pelos advogados a forma pejorativa e preconceituosa de como foi tratado o caso.

O ministro Marco Aurélio pediu revisão do caso, e, enfim, no dia 28 de março de 2019, o Supremo Tribunal Federal compreendeu a importância do sacrifício de animais para nós, praticantes do candomblé. Convém salientar a todos, que o animal sacrificado ou abatido (como pronunciamos) por nós não passa por maus tratos nem tão pouco sofrimento.

Este animal é sacralizado, tratado de forma religiosa e sacra, entregue aos deuses da natureza e distribuído para saciar a fome de todos ali presentes ou da comunidade. Os bichos são cozidos e oferecidos as pessoas como alimento sagrado e importante para a base alimentar de um indivíduo.

O candomblé mata a fome de muitas pessoas. Além da fé, existe uma ação social que não pode ser esquecida. Nós temos amor ao próximo e por isso distribuímos o alimento sagrado. O animal é limpo, passa por todo o processo de higienização necessária para seu cozimento e ali é degustado por todos.

É importante que as pessoas compreendam que não há sofrimento por parte do animal. Ali encontra-se um alimento muito importante para nós, um alimento que nos fortalece espiritualmente e biologicamente. Muitos ativistas, erroneamente, questionaram a decisão do Supremo Tribunal Federal em constitucionalizar o abate de animais nas religiões de matriz africana, mas é preciso lembrar que o hábito de comer animais é algo antigo e já faz parte da nossa cadeia alimentar.

Portanto, as argumentações negativas não possuem fundamento. É preciso vivenciar para entender como a religião sacraliza e realiza as ações sociais para a comunidade. Isso inclui os animais abatidos. Vamos ter mais consciência e menos preconceito ou intolerância, vamos compreender para poder argumentar sobre o fato.

Que nosso asè possa ser respeitado. Obrigada Sàngó por ser justo.

Kaó Kabiecilé