Não coloque pagode no meu forró!!! Um equivoco gigante

Decisão para colocar artista na grade do programa “São João do Nordeste”, da Rede Globo, dividiu opiniões durante a semana

FOTO: Instagram – divulgação

Por Gustavo Medeiros

A Rede Globo vem anunciando, desde o início da semana as atrações do programa São João do Nordeste. A atração, que este ano, por conta do isolamento social, será realizada em formato de live e exibida neste sábado após a novela das 20h. A atração, que vai contar com bandas e artistas que representam os noves estados nordestinos, foi motivo de polêmicas e discussões nas redes sociais por um detalhe gigante, a presença de Léo Santana na grade de artistas do programa, uma vez que a atração é destinada para comemorar as festas juninas com o mais nordestino de todos os ritmos, o forró.

A escolha de Léo Santana, artista ligado ao pagode e com passagem marcada pela banda Parangolé, foi motivo de muitas críticas a produção do programa, que selecionou outros artistas ligados ao forró e suas vertentes como Mano Walter, Solange Almeida, Amazan entre tantos outros. Em nota emitida para a imprensa, a TV Bahia justificou que o pagodeiro terá companhia da banda Forró do Tico. A emissora não explicou os critérios usados no convite ao “Gigante”.

Leo Macedo, vocalista da Banda Estakazero, declarou em um vídeo, postado em suas redes sociais, que os outros artistas que representam o segmento no estado se viram desapontados com a decisão. Para ele, “não existe São João sem forró.”. Entretanto, vale lembrar que isso não é regra para os grandes produtores de eventos e contratantes. Eles não levam a sério a força das tradições culturais existentes nos festejos juninos e montam festas fechadas com atrações diversas, algo distópico e fora da realidade se vermos com detalhes a estrutura que é montada.

View this post on Instagram

Depoimento sobre o São João do Nordeste.

A post shared by Leo Estakazero (@bandaestakazero) on

Bahia Junina

É possível encarar a escolha de Léo Santana como um duro golpe para quem vive o mês de junho viajando os quatro cantos do estado e da região, perdendo noites nas estradas e cumprindo uma extensa agenda de shows, que vai para um pouco além do mês de junho, normalmente, sem considerar estes tempos de pandemia do Novo Coronavírus. Para além da realidade posta, vale pensar na diversidade territorial do nosso estado e como a cultura junina se performa em cada realidade.

Mais do que se imagina, na Bahia cabe tudo e o forró, assim como o arrocha,a axé music, o samba de roda e a música sertaneja, preenche um espaço de grande importância neste grande imaginário formado por litorais,serras,chapadas e sertão. Do extremo sul até o norte banhado pelo ciúme entre Juazeiro e Petrolina, a Bahia Junina se manifesta no legado máximo deixado pelos gênios como Luiz Gonzaga, Trio Nordestino ( baianos de Curaçá), Dominguinhos e outras lendas vivas como Genival Lacerda.

A Bahia respira ( e transpira) forró

A Bahia também respira forró e não dá para imaginar São João sem os grandes artistas como Adelmário Coelho, Zelito Miranda,Carlos Pitta, Virgílio, Xangai, Edigar Mão Branca e os ícones da nova geração como Estakazero, Targino Gondim ( Um pernambucano que a Bahia adotou), Tio Barnabé, Matheus Boa Sorte, Jeanne Lima, Del Feliz, Cicinho de Assis, Noberto Curvelo, Jô Miranda e Marquinhos Café, só para citar.

Para além do pagode, que contém nomes como de Léo Santana e é uma derivação urbana do Samba de Roda que surgiu no Recôncavo Baiano, o forró se alastra em potência no maior estado da região Nordeste. E não é de se imaginar que, antes de serem estrelas da música sertaneja, Simone e Simaria ( nossas baianas de Uibaí com raízes em Ituaçu) estavam ensaiando os primeiros passos para o sucesso cantando forró, algo que foi revisitado em uma das lives realizadas pela dupla nessa quarentena. Até mesmo Gilberto Gil e Moraes Moreira (também baianos de Ituaçu) se renderam ao ronco nobre do fole em um certo momento de suas produções musicais.

Portanto, não dá para pensar São João sem o forró em Senhor do Bonfim, Cruz das Almas, Amargosa, Cachoeira, Ibicuí, Jequié, Vitória da Conquista, São Sebastião do Passé, Piritiba,Miguel Calmon, Lençóis e nas pequenas cidades onde o legítimo som feito por um triângulo, um zabumba e uma “Sanfona Sentida”, sangrando melodias quentes nas noites frias ao pé de uma fogueira, se faz presente.

Enfim, vale a lembrança, em meio a um ano atípico, onde viveremos os festejos juninos dentro de nossas casas, sem o aquecer das fogueiras e sem o som dos fogos de artifício. O esforço de quem mantém a cultura nordestina na Bahia se traduz na música e na alegria de quem faz o forró seja na Chapada Diamantina, no Recôncavo, na Região Sisaleira ou no longínquo Oeste, já na divisa com Goiás, Piauí, Minas Gerais e Tocantins.

Maior que tudo

O forró é maior que qualquer decisão de interesse de produtoras, é uma tradição sustentada e nutrida de geração para geração, com base na fé e na devoção de um povo aos três santos (Antônio, João e Pedro). Mais além do que a escolha de Léo Santana, o mais nordestino de todos os ritmos sobrevive a ação do tempo, que embala casamentos, dores de amor e alegrias repletas na fartura de uma colheita ou em uma história pitoresca.

Para além de qualquer decisão, o forró continua sendo maior que tudo.

Insights do Cotidiano

Saúde Mental em Tempos de Isolamento

Por Priscilla Fraga

“Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo o planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém

O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não ‘tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não ‘tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não ‘tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar”

(Raul Seixas)

Como Raul cantava “No dia em que a Terra parou”, imagina-se que ele não fazia idéia do que enfrentaríamos anos depois. Hoje sabemos que o isolamento social é a melhor forma de prevenção ao corona vírus, porém esse novo “normal” trazimpactos nas nossas emoções. 

Cada pessoa vivenciará o momento de maneira diferente, isso é inegável, independente da condição física, mental ou social, porém se já temos antecedentes de diagnóstico de transtornos psicológicos, chamo ainda mais atenção para a ansiedade e a depressão, pois os desdobramentos podem ser ainda mais graves, para algumas pessoas.

E você deve estar, a se perguntar o por que? Bom, porque, pessoas ansiosas se preocupam excessivamente, apresentam dificuldade de se concentrar, irritam-se com facilidade, tem alteração no sono, tensão muscular, além das suas expectativas, serem passíveis a frustração, na grande maioria das vezes. Já nos transtornos depressivos, as pessoas tendem a estarem em um estado de tristeza profunda, tomadas por sentimentos de desespero e desesperança, o que interfere diretamente em atividades da vida cotidiana, diminuindo o interesse em realizá-las, insônia, além dos fatores externos que podem desencadear-la como estressores, perdas e separações.

O que podemos fazer ? Segue abaixo cinco dicas:

1. Rotina

Tente elaborar uma rotina mesmo que semi-estruturada, passível a flexibilizações e mudanças, pois ela ajudará a organizar suas atividades diárias e evitará sensações de angustia e vazio.

2. Tecnologia

Use-a de maneira sábia, a fim de estar próximo dos seus afetos. Evite entrar em contato com notícias que lhe desregulem emocionalmente, ocasionando por consequência crises emocionais.

3. Meditação

Pratique-a, pois ela irá lhe ajudar a diminuir o stress e a ansiedade, melhorar a concentração, além de ser uma excelente ferramenta para estar mais em contato com o autoconhecimento.

4. Atividade Física

Faça atividades que te dêem prazer, pois elas colaboram com o sistema imunológico e melhoram a sensação de bem estar.

5. Terapia On-line

Busque ajuda, caso perceba que não está conseguindo administrar as suas demandas, e não a hesite, ela é fundamental no processo.

Esse nosso inimigo é invisível, mas você não precisa ser diante das suas necessidades.

Se cuide, se ame, se proteja!

*A experiência de vida e profissional.

Fontes utilizadas:

*https://ufrj.br/noticia/2020/03/25/coronavirus-saude-mental-em-tempos-de-isolamento

*http://www.pucrs.br/blog/cuidados-com-a-saude-mental-em-tempos-de-isolamento-social/

*https://saude.abril.com.br/podcast/a-saude-mental-durante-e-apos-a-pandemia-de-coronavirus-podcast/

A ressignificação do amor na pandemia. Como amar na quarentena?

Este é o momento importante de transformar os nossos afetos

Foto – Susan Cipriano/Pixabay

Por Gustavo Medeiros

O Dia dos Namorados é a verdadeira celebração do amor e do consumo, onde o comércio, no clima dos festejos juninos e das férias no meio do ano, lucra bastante com a venda de produtos e serviços. É o momento onde estabelecimentos como bares, restaurantes,cinemas e hotéis/motéis faturam alto.Em 2019, apenas o comércio eletrônico,por exemplo, faturou cerca de 25% a mais do que em 2018. Entretanto, o papo aqui não é sobre vendas e comércio na data feita para celebração do amor.

O que podemos esperar no dia 12 é uma breve reflexão sobre os nossos sentimentos, uma ressignificação do afeto e da forma de sentir o amor em todas as suas versões. Durante a semana, muitas matérias nos telejornais preconizaram o aumento dos serviços de telemensagens e o crescimento do consumo através das compras on-line.Mas nada,além das transmissões e lives, será tão significativo do que repensar como se relacionar com o outro, as várias formas de transmitir os afetos e repensar as relações em tempos onde o isolamento social é regra de sobrevivência.

Pensando as relações

Foto – Reprodução

Na quarentena, muitas relações foram revistas. Com a convivência constante no lar, algumas uniões foram fortalecidas, outras foram repensadas ou então desfeitas. Conviver com o outro foi o termômetro para definir os sentimentos e o nível de afeto em contraposição com a vida agitada que antecedeu este período, onde a falta de tempo era comum.

Para além destes casos, o distanciamento social também separou os crushes, as relações em formação, além dos noivos que celebrariam a união durante estes dias. Enfim, nada que a tecnologia, com as ligações pela internet, possam resolver. Nos dias de hoje, a distância é um pequeno detalhe diante das maravilhas que a grande rede nos proporciona.

Neste sentido, o que deve se refletir são as formas de pensar os afetos, os sentimentos e as trocas.Como definir o amor ou as formas de senti-lo é o maior desafio imposto por este tempo de clausura, que nos colocou em estado de reflexão de tudo o que foi feito, as nossas ações diante do outro com quem convivemos, seja os nossos pais, irmãos, primos,tios amigos,colegas e,por que não, amores. Talvez seja o momento exato para revermos o significado desta data e como devemos pensar as relações durante este dia.

Ressignificando emoções

Foto – Mladen Antonov (AFP)

Repensar a forma como expressamos este amor é algo necessário. Em qualquer tipo de relação, este sublime sentimento se performa de várias maneiras através do contato e da maneira como traduzimos o afeto. Ter a consciência de que o amor se performa independente da efemeridade vista na paixão é importante.

Com a distância proporcionada pelo isolamento social, o amor, ou a forma de amar, deve ser ressignificada,assim como os demais sentimentos. Com a urgência dos dias, que nos mostra a agonia, as dores, as angústias, a preocupação com quem está longe ( ou perto), ou mesmo a forma como amamos se torna premente. No decorrer dos tempos, a forma de amar sempre sofreu transformações e daí descobrimos que este sentimento resiste e nos fortalece, independente da nossa condição, se está solteiro ou em uma relação, o momento é de ressignificar afetos.

Afrontosa

O Amor é para todos?


Por Li Afrontosa

Imagem by Pinterest

Amor: substantivo masculino que se refere a forte afeição por outra pessoa.
O sentimento foi eternizado por poetas, autores e tema de muitas canções.
O modelo de amor romântico está há séculos permeando o imaginário de homens e mulheres ao redor do mundo.
Histórias de amor ilustram livros, filmes, revistas e novelas, tornando quase impossível um ser humano que não conheça um romance.
Ter um amor, um par romântico é uma construção social das mais enraizada na sociedade.
As relações amorosas são pautadas em regras culturais sociais e religiosas, o status de casal pode significar ascensão social, poder, realização, prazer e prestigio.
No mundo de príncipes e princesas com características físicas e psicológicas minuciosamente moldadas a perfeição o amor é vendido como a segurança da felicidade eterna.
Ser digno de ser amado é um desafio que aflige muitas pessoas o perfil que projetaram como desejável é na maioria das vezes inatingível.
A percepção do amor romântico é vivenciado por cada indivíduo de uma forma diferente, levando em conta as condições de raça, gênero e classe social
Será que um sentimento tão poderoso está disponível para todos?
Se pudesse ser descrito, de que cor e de que forma seria?
Para entender um pouco desse recorte, vamos conversar com a Lorena Ifé, 31 anos, moradora de Salvador, jornalista, empreendedora, conhecida como Mainha do Afrodengo, é fundadora dessa rede, pesquisa de forma autônoma, sobre amor a partir da perspectiva de pessoas pretas.
Mmqi =Lorena, o amor romântico está acessível para todos?


Lorena Ifé- O amor é uma construção social que vem se moldando ao longo dos anos cada época ele se configura de uma forma e o amor romântico é galgado nas idealizações, naquele ideal de que um completa o outro, que aquela pessoa é perfeita e está muito presente nos contos de fadas e nos filmes românticos hollywoodianos e ele foi muito centrado na construção histórica de amor para pessoas brancas, o amor romântico está muito presente aqui no ocidente e tem essa configuração, mas na história da construção que a gente teve acesso o amor esteve sempre para pessoas brancas e o que ocorre é que você acaba descobrindo que aquela idealização que você fez da pessoa não é o que a pessoa é , a pessoa tem defeitos, tem falhas enfim. Para mim ele não está acessível para todos principalmente quando se fala de população preta, ele não nos contempla, quando vemos os contos de fadas, os filmes, são sempre pessoas brancas que estão lá , são sempre pessoas que estão longe de ser o que a gente é, mas é algo que foi construído no nosso imaginário e a gente quer isso, mas quando a gente encontra alguém para dividir, para amar, compartilhar a gente se frustra.
Mmqi= Qual a cor e a forma do amor?


Lorena Ifé- Quando a gente fala de amor na perspectiva de pensar população preta a gente percebe que ele tem cor, o amor é algo que é muito acessível para pessoas brancas, mas para a gente ele deixa lacunas, principalmente quando a gente pensa na construção histórica das famílias, quando a gente vai para o período de escravidão que a gente era visto só como corpo, tem um livro A historia do amor do Brasil que relata o amor, o casamento para pessoas pretas está lá os casamentos entre um homem branco e a mulata como eles dizem, era algo que eles faziam de tudo para impedir, então a gente estava apenas para o sexo.
Mmqi: Como nasceu o Afrodengo?


Lorena Ifé– O Afrodengo é um grupo que funciona no Facebook, mas ele é mais que um grupo é uma rede de relacionamento centrada no amor entre pessoas negras, na afroafetividade, o grupo possui mais de 50 mil pessoas de todo o mundo, mas o foco principal é para pessoas pretas no Brasil e ele surgiu da ideia de pensar o amor, a formação de relacionamento entre pessoas negras, porque existe uma falha nos aplicativos de relacionamentos que eles não tem diversidades e eles não são feitos para pessoas pretas, eu utilizava e ainda utilizo, e percebo pessoas falando, relatando casos de racismo e de invisibilidade nesses espaços. O grupo foi criado em 2017 é responsável por formar vários casais, amigos e rede de network focada em pessoas pretas, ele iniciou como um grupo de paquera, mas tornou-se um grupo de paquera, amizade e network, ele já formou várias famílias e trouxe para internet essa pauta de amor preto, desde que o Afrodengo surgiu vários outros grupos surgiram e a gente pode considerar que o amor é uma pauta de extrema importância para se pensar a construção da pessoa preta.
Mmqi= Por que limitar o acesso de não negros?


Lorena Ifé– Essa discursão de entender o amor como forma política começou para mim quando eu li um texto de Bell Hooks uma intelectual afro americana que falava sobre a construção do amor nas famílias pretas e eu percebi as lacunas deixadas da escravidão na nossa forma de amar, eu percebia vários conflitos que existiam dentro de famílias, de não demostrar amor por ser uma fraqueza, ai eu entendi que criar um movimento politico de afeto preto seria importante, e eu limitei as pessoas negras porque são as que mais sofrem as consequências dessa falta de amor. Então eu quis promover um resgate histórico, um processo de resistência de resgate de algo que quando a gente vai buscar as histórias de famílias africanas esteve presente em nossas vidas, mas quando a gente foi trazido par a o Brasil isso foi muito massificado, quando a gente pensa hoje em espaços de pratica religiosa como religião de matiz africana, parte muito dessa ideia de pensar o quilombo para construção do amor de formação de família. O Afrodengo é esse nicho para pessoas pretas porque ele visa atender essa demanda que a demanda do amor está para todos, mas quando se fala de pessoas negras tem algumas particularidades.
Mmqi =A solidão da mulher negra é uma realidade?


Lorena Ifé – É uma realidade para as mulheres negras no Brasil, mas eu acho que ele vai muito para além de não ter um par romântico, eu acredito que a solidão da mulher negra vai muito no sentido de a gente achar que amor na nossa vida não é uma prioridade, que a gente precisa estudar, trabalhar e ter outras prioridades e achar que o amor é perda de tempo, que a gente não tem direito a isso e eu digo amor em varias esferas, tanto o amor romântico, como da própria família, que as vezes a gente acaba se isolando e buscando construir nossas trajetórias sozinhas ou estar sempre para cuidar do outro e nunca ter esse lugar de ser cuidada.
Mmqi = Quais as barreiras que a mulher encontra para engatar um relacionamento?


Lorena Ifé – Eu penso que nós mulheres pretas estamos centradas nessa construção desse amor romântico mas que não nos contempla que é o amor que está no imaginário da nossa infância dos contos de fadas que a gente leu, do que nos foi passado que estava no imaginário geral da construção do amor, não tinha essa delimitação , agora tenho me debruçado em ler autoras intelectuais negras que falam sobre amor na perspectiva preta e que eu percebo que é algo completamente diferente, porque a gente está lutando por algo que é direito nosso, mas que foi nos tirado principalmente no processo de escravidão que nós vivemos, Então gente imagina numa perspectiva hetero aquele cara perfeito que vai atender todas as nossas necessidades, mas a gente esquece de pensar que existem questões tanto crenças, quanto traumas que a gente viveu e que esses homens viveram e que isso interfere na nossa forma de se relacionar com as pessoas, então agora a gente precisa promover o resgate de pensar o amor como ação, o que eu posso fazer para amar outra pessoa, o que eu posso oferece a ele e o que ela pode me oferecer, e pensar o amor como uma escolha que você vai se dedicar em construir e evoluir espiritualmente com aquela pessoa.
Mmqi = Relacionamentos afrocentrados é uma forma de resistência?


Lorena Ifé – Eu não uso o termo afrocentrado porque é uma área de estudo que ainda não me aprofundei, eu uso o termo amor preto. Sim é uma forma de resistência, eu sempre digo que o amor preto perpassa em saber amar a si mesmo, então é uma forma de resistência, é uma forma de amar alguém que se parece com você e para amar alguém que se parece com a gente precisa primeiro se amar, e é uma forma de resistência de resgate de pensar o amor, de pensar comunidade, de pensar construções de amor saudáveis a partir da base de nossos ancestrais.
Mmqi =Quais os perfis dos seguidores?

Lorena Ifé– São pessoas pretas a partir de 18 anos com pessoas até mais de 60 anos de vários lugares do Brasil, os lugares que tem mais gente é São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador que foi onde tudo começou, são pessoas que são solteiras, tem casais dentro do grupo que se apresentam, mais a maioria são pessoas solteiras ou que vivem relacionamentos com pessoas pretas e querem falar dessa relação.
Mmqi =Relacionamento monogâmico ainda é uma preferência?


Lorena Ifé-Eu sou uma pessoa não monogâmica e sou ativista dentro dessa área, mas o perfil das pessoas no Afrodengo é um perfil monogâmico sempre que a gente trazia a pauta da não monogamia para dentro do grupo tinha conflitos ai eu decidi criar o grupo Afrodengo Amores Livres que é para discutir a pauta da não monogamia entre pessoas pretas e lá a gente dialoga sobre desafios, sobre como se estrutura relações assim, mas a preferencia é a monogamia no grupo oficial.
Mmqi=Dia dos namorados está chegando o que você deseja para os apaixonados?


Lorena Ifé– A mensagem que eu deixo para as pessoas é que agora é hora de pensar o amor como ação, quando a gente pensa sobre isso, a gente age de forma mais responsável de entender quais os desafios que a gente enfrenta para poder se amar e amar outra pessoa, então o que eu deixo é que vocês aproveitem ao máximo esse momento, em tempos de isolamento social é o momento da gente pensar qual o tipo de relação a gente quer construir, refletir a pessoa que a gente está compartilhando nossa vida, se você mora junto com a pessoa, pensar como pode fazer para tornar o relacionamento mais saudável e isso vem do dialogo de escutar a pessoa e de oferecer o que a gente tem de melhor e pensar que é uma pessoa humana e que a gente não pode ficar idealizando e sonhando com uma peoa que não existe, evoluir com a pessoa que a gente tem, é essa a mensagem que eu deixo.

O que nos faz “mais humanos” diante das tragédias??

Uma análise importante frente os últimos acontecimentos que envolveram vidas

 Foto: TERRAY SYLVESTER / REUTERS

Por Gustavo Medeiros

O mundo entrou em comoção com um fato ocorrido nos Estados Unidos na última semana, onde o segurança George Floyd foi morto por um policial em uma abordagem. O fato, que aconteceu em Minneapolis, nos Estados Unidos, causou uma onda de protestos, colocando em evidência as ações truculentas da polícia contra pessoas pretas. Os atos se espalharam e se tornaram ações contínuas nas ruas e nas redes, isso em todos os cantos do mundo.

Ações que envolvem violência em abordagens policiais ou qualquer outro ato que tenha como alvo uma pessoa preta tem se tornado pontos cruciais de comoção no Brasil e no mundo. Casos como o do jovem Jovem Pedro, de 14 anos, que foi baleado em casa no Complexo do Salgueiro (RJ), bem como o de João Miguel, uma criança com apenas 05 anos de Idade, morto por um “descuido” em um condomínio de luxo no Recife (PE), nos diz muito sobre como, e de que forma, nos comovemos.

Independente de ter mais ou menos melanina na epiderme, os fatos ocorridos nos aproximam de valores humanos, de um sentimento de pertença maior do que grupos ou movimentos raciais podem delimitar em suas militâncias. Casos como esses nos aproxima da nossa humanidade, algo que estamos estamos conquistando a duras penas com a evolução do sentir-se humano em nos colocarmos no lugar de quem sofreu, sem ser moda ou seguir uma tendência porque as redes sociais assim determinaram.

Diante da pandemia de Coronavírus e do avanço da negligência com a vida nos sistemas e regimes autoritários, o ser humano se põe a refletir e questionar o seu espaço e sua importância com relação ao outro e aqui não cabe colocar vítimas e vilões das histórias. Somos todos humanos, seres em evolução e conseguimos, enfim, exercitar, diante de tais tragédias, o nosso sentimento de empatia, de se colocar no lugar do outro, mais precisamente, daquele que sofre, mesmo que seja um ato “isolado”.

Os movimentos sociais, que lutam por direitos, precisam entender que nenhuma comoção acontece do nada, por acaso. A vida e a maturidade dos sentimentos nos ensina a entender os fatos e se sensibilizar sem ter consigo a semente do ódio, do revide, pois a solidariedade, em situações difíceis, fala mais alto aos corações. Aliás, em momentos, onde a nuvem tóxicas da nossa psique pende para o lado negativo, não nos cabe reagir da mesma forma que os nossos algozes.

Para que todos entendam que, os fatos em si, nos colocam em estado de reflexão para entender que todas as vidas importam e todos tem seu lugar no mundo em frente a resistência daqueles que insistem em manter um sistema corroído pela traça do ódio, da desigualdade, das injustiças, entre tantos pontos negativos,pois ainda estamos presos a ele.

Enfim, para exigirmos mudanças no outro, cabe a nós passar pelo mesmo processo, de forma íntima. Dessa forma, é possível constatar que, diante dos fatos, isso já ocorre e os resultados estão na comoção das pessoas e dos sentimentos de empatia que elas tiveram nos casos ocorridos no Brasil e nos Estados Unidos.