Censura: justiça do Rio determina retirada do ar do especial de natal do Porta dos Fundos

Decisão liminar – provisória – atende a pedido feito pela Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura. Mérito da ação ainda será analisado.

Por Juliana Barbosa

A Justiça do Rio determinou nesta quarta-feira (8) que seja suspensa a exibição do vídeo “Especial de Natal Porta dos Fundos: A Primeira Tentação de Cristo”. 

A produtora Porta dos Fundos tem sido criticada nas redes sociais por vários grupos cristãos pela maneira como retratou Jesus no programa de humor exibido na Netflix. O filme insinua que Jesus teve uma experiência homossexual após passar 40 dias no deserto.

Alvo de ataques desde a sua divulgação, o especial de 46 minutos apresenta Jesus (Gregorio Duvivier), prestes a completar 30 anos. Ele é surpreendido com uma festa de aniversário quando voltava do deserto acompanhado do namorado, Orlando (Fábio Porchat). A sátira com um Jesus gay desagradou setores religiosos.

O desembargador Benedicto Abicair, da 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, acatou, em uma decisão liminar – provisória – a um pedido da associação católica Centro Dom Bosco de Fé e Cultura que, em primeira instância e durante o Plantão Judiciário, havia sido negado.

Na liminar, o desembargador defende que o direito à liberdade de expressão, imprensa e artística não é absoluto. E tratou a decisão como um recurso à cautela para acalmar os ânimos até que se julgue o mérito do caso. 

Afirmou também que a suspensão é mais adequada e benéfica para a sociedade brasileira, de maioria cristã.

Em uma primeira decisão, a Justiça havia negado o pedido de liminar. A juíza Adriana Jara Moura, da 16ª Vara Cível, afirmou que o filme não viola o direito da liberdade de crença de forma a justificar a censura pretendida. 

Agora, com a decisão em segunda instância, não só a exibição do filme está suspensa, mas também trailers, making of, propaganda e qualquer publicidade referente ao Especial de Natal do Porta dos Fundos.

A assessoria de imprensa da Netflix informou que a empresa ainda não foi notificada e que não vai se pronunciar. 

A equipe do Porta dos Fundos disse que também não foi notificada. 

Presidente da OAB cita ‘censura’

Em nota, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, se posicionou contra a decisão. 

“A Constituição brasileira garante, entre os direitos e garantias fundamentais, que ‘é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença’. Qualquer forma de censura ou ameaça a essa liberdade duramente conquistada significa retrocesso e não pode ser aceita pela sociedade”, disse Felipe Santa Cruz.

Ataque à sede da produtora

Na madrugada de 24 de dezembro, a sede da produtora do Porta dos Fundos no Humaitá, Zona Sul do Rio, foi alvo de um ataque. Dois coquetéis molotov foram jogados contra a fachada do imóvel. O caso foi registrado como crime de explosão na 10ª DP (Botafogo). 

Houve danos materiais no quintal e na recepção. Segundo integrantes do grupo, caso não houvesse um segurança no local, todo o prédio teria sido incendiado. O fogo foi contido pelo funcionário. 

Suspeito é incluído em ‘lista vermelha’ 

O economista e empresário Eduardo Fauzi foi identificado como suspeito de atacar a sede da produtora Porta dos Fundos. Nesta quarta, ele foi incluído a pedido da Polícia Federal na lista de difusão vermelha da Interpol

Ao ter o nome incluído na lista de difusão vermelha, a pessoa pode ser presa por qualquer força policial do país em que esteja. –:–/–:–

Polícia Federal coloca Eduardo Fauzi na lista vermelha da Interpol

Polícia Federal coloca Eduardo Fauzi na lista vermelha da Interpol 

Fauzi está foragido desde 31 de dezembro, quando a Polícia do Rio tentou cumprir o mandado de prisão contra ele expedido pela Justiça. Conforme a polícia, ele fugiu para a Rússia em 29 de dezembro.

Segundo os investigadores, cinco pessoas participaram do ataque e Fauzi foi o único que fugiu com o rosto descoberto.

Fonte: G1, O globo, Mídia Ninja

Os poetas marginais: Na semana em que lembramos a morte de Gozaguinha e Belchior: os legados imortais dos dois artistas.

 Há 28 anos, um acidente de carro no Sudoeste tirava a vida de Gonzaguinha um dos grandes nomes da música brasileira. Belchior morreu em 30 de abril de 2017, aos 70 anos, na cidade de Santa Cruz do Sul. 

Por Juliana Barbosa

Começamos o mês de Maio, lembrando de grandes artistas mortos em Abril. Em suas obras destacam-se a luta pela liberdade, num período em que a censura tentava calar a voz de todos. Mas, a inteligência é e foi soberana, fazendo com que Belchior e Gonzaguinha conseguissem driblar a ditadura.

Antônio Carlos Gomes Belchior era conhecido apenas no Ceará, quando, em 1971, se fez notado nacionalmente ao vencer o IV Festival Universitário da MPB, promovido pela extinta TV Tupi, com Na hora do almoço. Na letra dessa canção seminal, Belchior já deixava claro que não fazia parte do bloco dos contentes. O país vivia sob a égide da ditadura militar e, nos primeiros versos da letra, ele cantava: “No centro da sala, diante da mesa/ No fundo do prato, comida e tristeza/ A gente se olha/ Se toca e se cala…”

O cantor e compositor, nascido em 26 de outubro 1946, na cidade de Sobral (CE), morto ontem, aos 70 anos, em Santa Cruz do Sul (RS), iniciou a carreira artística no início da década de 1970, depois de se mudar para Fortaleza. Na capital cearense tomou contato com Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Cirino, Teti e Amelinha. Informalmente, criaram um grupo que ficou conhecido como Pessoal do Ceará.. Muito mais do que um mero intérprete e compositor de músicas românticas, Belchior foi uma das grandes vozes que se levantou contra a ditadura militar.

Belchior se antecipou aos amigos e desembarcou no Rio de Janeiro, em 1971. Antes disso, nos encontros que mantinham com regularidade, no Bar do Anísio, em Fortaleza, já era ouvida a canção Mucuripe, nome da praia em que o estabelecimento se localizava. A música ganhou nova versão criada por Raimundo Fagner, que viria a ser gravada por Elis Regina e Roberto Carlos.

Com Mucuripe, Fagner, morando em Brasília, venceu 1º Festival do Ceub em 1971, mas, nas entrevistas que concedeu ao Correio, sempre fez questão de afirmar que a música era uma parceria dele com Belchior. O certo é que Mucuripe contribuiu decisivamente para os dois se popularizarem nacionalmente.

Foto:internet

A imagem de Belchior vendida pela indústria cultural é a do artista brega, de voz fanha e bigodão – uma figura! Poucos prestam atenção nas letras. A forma simples de suas canções possibilitou sua assimilação pela indústria fonográfica, que criou-lhe uma imagem caricata e reproduziu suas músicas em massa, entre shows, premiações e programas de auditório, fazendo tábula rasa de seu conteúdo crítico. Belchior foi reduzido a um mero cantor romântico. Em estética, o artista engajado politicamente deve escolher entre dois caminhos: o da forma artística de difícil assimilação – e remuneração! – para o público e para a indústria cultural; ou o da forma mais simples, de fácil assimilação do público e do show business. Ambas as opções estão fadadas ao silêncio político: uma não apela, a outra tem seu apelo anulado pela caracterização.

A especificidade de Belchior é a sua consciência perante esse processo todo.

“Aluguei minha canção / pra pagar meu aluguel / e uma dona que me disse / que o dinheiro é um deus cruel / […] hoje eu não toco por música / hoje eu toco por dinheiro / na emoção democrática / de quem canta no chuveiro / faço arte pela arte / sem cansar minha beleza / assim quando eu vejo porcos / lanço logo as minhas pérolas” (TOCANDO POR MÚSICA, Melodrama, 1987).

Belchior demonstra uma compreensão total do processo da indústria cultural, dificultando demasiado a ocorrência de composições com alto grau de complexidade – os artistas que se propõem a tal correm sempre o risco da miséria material e do esquecimento. Os próprios arranjos dos discos de Belchior são bem simples, com o teclado tendendo ao “engraçado”. Não é da mesma maneira em relação às letras, sempre de profundidade e crítica ácida.

Cada autor encontra uma forma para se expressar: o ensaio filosófico, a pintura não-figurativa, a ópera, a canção. Belchior, antes de músico no sentido geral, é um compositor de canções. Ser letrista foi a forma adequada que Belchior encontrou para transpassar seus pensamentos. É preciso ter em mente, ao pensarmos a obra de Belchior, um autor de vasta erudição, de poesia refinadíssima, conhecedor das línguas latinas e da literatura clássica, e um artista engajado politicamente de maneira radicalíssima. A partir da forma canção, Belchior oferece uma visão do Brasil e do mundo que pouquíssimos filósofos nascidos em nossas terras puderam vislumbrar. Como diz Nietzsche, o homem verdadeiramente de seu tempo sempre está à frente de seu tempo. É o caso de Belchior.
Escrita e lançada em 1976 Apenas um rapaz latino-americano é uma canção que caracteriza, de maneira irônica, o Brasil do período. Em 1976, cantores e compositores eram deportados do país para não sofrerem punições mais severas, muitas delas físicas.

“Mas trago de cabeça uma canção do rádio / em que um antigo compositor baiano me dizia / tudo é divino / tudo é maravilhoso / […] mas sei que nada é divino / nada, nada é maravilhoso / nada, nada é sagrado / nada, nada é misterioso, não” (APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, Alucinação, 1976)

Chamado de “antigo”, pois já havia deixado de ser vanguarda e caído no pop, encontramos mais uma crítica a Caetano e sua composição “Divino Maravilhoso” (1968), em parceria com Gilberto Gil e que foi imortalizada na voz de Gal Costa. Vale notar, sem dúvida, que a crítica de Belchior a Caetano provém de alguma admiração: em entrevista ao Pasquim em 1982, Belchior diz que Caetano Veloso é o melhor letrista da MPB, “o autor da modernidade musical no Brasil”. Todavia, é com enorme verve materialista que ele fortemente rebate a letra de Caetano – “nada é divino, maravilhoso, sagrado, misterioso!”

Outra canção inesquecível de Belchior é Os doze pares de França, de autoria de Belchior e Toquinho, que foi censurada porque para os censores os autores vangloriavam a França, “fazendo dele um país melhor para se viver do que o Brasil”

O materialismo é um dos fundamentos da música de Belchior. Seus grandes inimigos são os escapistas, os fugidios, aqueles que diante de crenças metafísicas falam de uma vida reconciliada, feliz. Musicalmente representada na Tropicália, essa ideia era disseminada pelos hippies, com a cabeça feita por alucinógenos e um mix de espiritualidade. A resposta do materialista é ácida [sic]. “Eu não estou interessado em nenhuma teoria / em nenhuma fantasia / nem no algo mais / nem em tinta pro meu rosto / oba oba, ou melodia / para acompanhar bocejos / sonhos matinais / eu não estou interessado em nenhuma teoria / nem nessas coisas do oriente / romances astrais / a minha alucinação é suportar o dia-a-dia / e meu delírio é a experiência / com coisas reais” (ALUCINAÇÃO, Alucinação, 1976). É como se Belchior dissesse que não é por estar num registro de experiência desconhecido que essa experiência é necessariamente divina; especular metafisicamente sobre isso não passa de teoria vazia. E que o importante não é o plano espiritual, mas este aqui, o da miséria e do sofrimento, a realidade empírica e social.

Aos 29 anos em 1976, quando do lançamento do álbum Alucinação, Belchior teve o tempo, a maturidade e o olhar aguçado para ver a dissolução do sonho pacifista de liberdade. Os libertários de outrora logo se tornaram os burgueses. “Já faz tempo / eu vi você na rua / cabelo ao vento / gente jovem reunida / na parede da memória / esta lembrança é o quadro que dói mais / minha dor é perceber / que apesar de termos feito / tudo, tudo o que fizemos / ainda somos os mesmos e vivemos / como os nossos pais / […] e hoje eu sei / que quem me deu a ideia / de uma nova consciência e juventude / está em casa guardado por Deus / contando seus metais” (COMO OS NOSSOS PAIS, Alucinação, 1976). É curioso notar que foi exatamente “Como os nossos pais”, na magnífica voz de Elis Regina, a canção que colocou Belchior de fato no mercado fonográfico.



O radicalismo político de Belchior tem seu principal fundamento na crítica do dinheiro em si e do trabalho alienado, uma crítica mais profunda do que a mera crítica do capitalismo. O dinheiro é tratado enquanto fetiche e abstração, mas também enquanto necessidade material e fonte da corrupção moral. “Tudo poderia ter mudado, sim / pelo trabalho que fizemos – tu e eu / mas o dinheiro é cruel / e um vento forte levou os amigos / para longe das conversas / dos cafés e dos abrigos / e nossa esperança de jovens / não aconteceu” (NÃO LEVE FLORES, Alucinação, 1976). E é o trabalho aquilo separa o homem da natureza, exterior e interior, desumanizando-o. “E no escritório em que eu trabalho e fico rico / quanto mais eu multiplico / diminui o meu amor” (PARALELAS, Coração Selvagem, 1977). Por isso, o aspecto político da obra de Belchior ultrapassa a defesa do socialismo centralista ou qualquer outro sistema que envolva a burocracia. O problema é um problema fundamental, primeiro, filosófico: a civilização. “Aqui sem sonhos maus, não há anhanguá / nem cruz nem dor / e o índio ia indo, inocente e nu / sem rei, sem lei, sem mais, ao som do sol / e do uirapuru” (NUM PAÍS FELIZ, Bahiuno, 1993).
Elas representavam uma afronta ao regime e traziam mensagens implícitas de reação ao que estava acontecendo com o país. Profundo como um antropólogo anarquista, um Pierre Clastres da canção, a crítica mira o fundamento da coisa: a racionalidade ordenadora, dominadora, instrumental, como fora notado por Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento (1946).

Belchior faz as denúncias fundamentais; sua arte é hegemonicamente negativa. Todavia, há um resquício de esperança nessa visão do Apocalipse, mesmo que a esperança fale sobre o que não deve ser. Nada absurdo para o cancionista sobralino, pois para ele a sociedade é ruim por excesso, não por falta. “Não quero regra nem nada / tudo tá como o diabo gosta, tá / já tenho este peso / que me fere as costas / e não vou, eu mesmo / atar minha mão / o que transforma o velho no novo / bendito fruto do povo será / e a única forma que pode ser norma / é nenhuma regra ter / é nunca fazer / nada que o mestre mandar / sempre desobedecer / nunca reverenciar.” (COMO O DIABO GOSTA, Alucinação, 1976). “Como o diabo gosta” deveria ter sido um hino da liberdade; passou despercebida, sem ninguém contestar a “Pra não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré, 1968) o posto de canção de protesto.

Para Belchior, as palavras são um instrumento de luta política, do despertar da consciência contra a opressão e seus mecanismos ideológicos. “Se você vier me perguntar por onde andei / no tempo em que você sonhava / de olhos abertos, lhe direi / amigo, eu me desesperava / […] e eu quero é que esse canto torto feito faca / corte a carne de vocês” (A PALO SECO, Alucinação, 1976). Para tal intento, sua canção deve ter um quê de dissonância para com o sistema estabelecido, e em vez de cantar as “grandezas do Brasil”, tem de denunciar os horrores de uma sociedade civil falida. “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve / correta, branca, suave / muito limpa, muito leve / sons, palavras, são navalhas / e eu não posso cantar como convém / sem querer ferir ninguém / mas não se preocupe meu amigo / com os horrores que eu lhe digo / isso é somente uma canção / a vida realmente é diferente / quer dizer / a vida é muito pior” (APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, Alucinação, 1976). Se a arte é a mímese da vida, toda arte, por mais verdadeira que seja enquanto parte, não dá conta do todo. A realidade é pior do que a tristeza que a arte transpassa, e pior do que o pesadelo em sonho. É essa realidade que importa mudar.

Um mecanismo utilizado nas letras e nas melodias de Belchior é o da aproximação perante o ouvinte. Cearense, migrante, que na cidade grande sofreu, tocou em puteiros, foi explorado para “fazer a vida”. “Pra quem não tem pra onde ir / a noite nunca tem fim / o meu canto tinha um dono e esse dono do meu canto / pra me explorar, me queria sempre bêbado de gim” (TER OU NÃO TER, Todos os sentidos, 1978). É assim, por meio de sua experiência de vida trash, que Belchior realiza o approche para com o ouvinte. Ritmo simples e letra aguda, essa foi a aposta do cancionista para a politização da massa. “A minha história é talvez / é talvez igual a tua / jovem que desceu do norte / que no sul viveu na rua / que ficou desnorteado / como é comum no seu tempo / que ficou desapontado / como é comum no seu tempo / que ficou apaixonado e violento como você / eu sou como você que me ouve agora” (FOTOGRAFIA 3X4, Alucinação, 1976). Ao dizer “eu sou como você”, Belchior almeja arrebatar o outro como identidade, e trazer à tona a revolta contra a opressão; seu público – alvo, escolhido a dedo, não é o intelectual burguês letrado, mas o pobre que vai ao boteco depois da jornada de trabalho; ele o reconhece como indivíduo ativo a ser despertado: o sujeito revolucionário. Mas é claro que a indústria cultural fez de tudo para anular esse conteúdo: em plena ditadura militar, transformaram Belchior numa personagem caricata, num astro romântico, o galã de “Todo sujo de batom” (Coração Selvagem, 1977).

Belchior sabe, desde muito tempo, que “Eles venceram / e o sinal está fechado pra nós / que somos jovens” (COMO OS NOSSOS PAIS, Alucinação, 1976). Mesmo assim, não foi em vão seu esforço: além de todas as canções citadas até agora, ainda há muitas outras de conteúdo crítico ferrenho, como por exemplo “Pequeno perfil de um cidadão comum” (Era uma vez um homem e seu tempo, 1979), uma epopeia sem o elemento épico, que fala de como é vã a vida do sujeito raso, de gosto pouco refinado, cuja finalidade é voltada ao trabalho; “Arte Final” (Bahiuno, 1993), grande canção sobre tudo aquilo que deveria ter acontecido e não aconteceu; ou “Meu cordial brasileiro” (Bahiuno, 1993), que identifica a tese do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Hollanda (Raízes do Brasil, 1936), o elemento diferenciador do brasileiro, com o aspecto consentido do nosso povo perante a política e o trabalho. Belchior teve sua poesia impregnada pela frustração de não ter podido colocar em prática o projeto por um mundo melhor, e sua música é mais verdadeira e mais revolucionária por isso: não promete a felicidade, mas escancara a impossibilidade dela no estado de coisas vigentes.

A canção Pequeno Mapa do Tempo, de 1977, uma crítica implícita ao regime, por causa dos versos “eu tenho medo e medo está por fora” e “eu tenho medo em que chegue a hora, em que eu precise entrar no avião“, uma alusão ao exílio, os censores concluíram que a música trazia mensagem de protesto político. No fim, em meio a essa cena sombria, nos tempos dele e no nosso tempo de agora, ainda há alguma esperança (?). Para Belchior, mais importante do que a filosofia ou a arte é a vida. “Primeiro o meu viver / segundo este vil cantar de amigo” (AMOR DE PERDIÇÃO, Elogio da Loucura, 1988). Sua filosofia é oposta à de Caetano: se para o compositor baiano, quem “mora na filosofia” está separado dos sentimentos humanos, a filosofia de Belchior provém da experiência; é pensamento vivo. “Deixando a profundidade de lado / eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia / fazendo tudo de novo / e dizendo sim à paixão / morando na filosofia” (DIVINA COMÉDIA HUMANA, Todos os sentidos, 1978). Marcado no cancioneiro latino-americano como uma de suas grandes vozes, Belchior foi um mestre da poesia. Foi assimilado pela indústria cultural, de fato, como Mercedes Sosa ou Che Guevara. Ele se jogou na contradição da música popular, assim como qualquer um se joga nas contradições da lógica do trabalho. Assimilado, mas não rendido. “Marginal bem sucedido e amante da anarquia / eu não sou renegado sem causa” (LAMENTO DE UM MARGINAL BEM SUCEDIDO, Bahiuno, 1993). Não é por ter sido reproduzido e veiculado pela indústria cultural que Belchior perdeu totalmente a sua virulência: ela se mantém viva em ouvintes atentos que, como nós, encontram nele uma manifestação da consciência de seu tempo, e mais: a esperança de um mundo melhor, inteiramente outro. Por agora, o importante é viver. “Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa / e não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza / sempre é dia de ironia no meu coração” (NÃO LEVE FLORES, Alucinação, 1976). Belchior, como Nietzsche, diz sim à vida, apesar de tudo, e talvez por isso tenha caído fora dessa loucura midiática que é a vida de um artista famoso sempre sob os holofotes.

A voz grave do poeta e cantor, que havia optado por um autoexílio silencioso nos últimos anos, calou-se de vez.  Sumiu durante anos: em relação às dúvidas acerca de seu paradeiro, que me perdoem os escandalizados, mas a letra já estava dada há muito tempo. “Saia do meu caminho / eu prefiro andar sozinho / deixem que eu decido a minha vida” (COMENTÁRIO A RESPEITO DE JOHN, Era uma vez um homem e seu tempo, 1979). o fim, a indústria cultural impede que qualquer artista seja levado muito a sério, por seu ostracismo ou por sua redução a uma imagem vendável. Nossa Política presta homenagens hoje e sempre a todos aqueles que viveram pela liberdade, pelo direito de expressar a sua personalidade, os seus credos, as suas verdades. Belchior, o poeta marginal, foi um destes brasileiros que transformou a sua arte em manifesto. Para se pensar o país.

O Genial Genioso que a ditadura quis calar:

Gonzaguinha, 70 anos: Imagem: Reprodução/YouTube

Poderíamos resumir: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior ou simplesmente Gonzaguinha nascido no Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1945 e falecido em 29 de Abril de 1991 filho de Luiz Gonzaga foi cantor e compositor. Órfão aos 2 anos(a mãe morreu de tuberculose) e o pai sem condições de cuidar devido as viagens que fazia pelo país entregou-o aos padrinhos por quem foi criado. Não seria justo, nem suficiente. Gonzaguinha fez sua carreira independente de ser filho de Luis Gonzaga, Rei do Baião. Gonzaguinha, vara de Bambu, envergava mas, não quebrava. Não se submetia ao que não o convia.

Aos 14 anos( Lembranças de primavera). Aos 16 anos foi morar com Gonzagão pois queria estudar Economia. Fundou o Movimento Artístico Universitário (MAU), com Aldir Blanc, Ivan Lins, Márcio Proença, Paulo Emílio e César Costa Filho. Tal movimento teve importante papel na música popular do Brasil nos anos 70 e em 1971 resultou no programa na TV Globo Som Livre Exportação. 

Por vias tortas, seu padrinho foi Flavio Cavalcanti. Naquele mesmo ano, em janeiro, o apresentador o convidou para participar do quadro Um Instante Maestro, com a canção “Comportamento Geral“. Nela, o compositor alfinetava a atitude complacente e medrosa daqueles que abaixam a cabeça para tudo e para todos: “Você deve lutar pela xepa da feira / e dizer que está recompensado”.

O júri do programa destruiu sua música e cobriu Luiz Gonzaga Jr. de ameaças. Um dos jurados o chamou de terrorista; outro sugeriu sua deportação.

Foi o bastante para que o rapaz se tornasse conhecido. Em uma semana, o compacto vendeu 20 mil cópias e incomodou o Dops. A exibição da música foi proibida, mas não sua comercialização, de modo que Gonzaguinha aproveitou o sucesso para lançar o primeiro LP, que continha “Comportamento Geral” no lado B, no segundo semestre.

Submetido ao DOPS( Departamento de Ordem Política e Social) teve das 72 canções mostradas 54 censuradas dentre elas seu primeiro sucesso Comportamento Geral,recebeu o apelido de ‘’cantor rancor’’ com as canções Piada Infeliz e Erva. Três músicas que cabe aqui destacar até mesmo pelo período que estamos passando e nos remete as mesmas situações vividas ainda que em outra proporção são:

‘Pois é,Seu Zé:
“ultimamente ando matando até cachorro a grito
e a platéia aplaudindo e pedindo bis

nas refeições uma chachaça e às vezes um palito
e a platéia aplaudindo e pedindo bis

ando tão mal que ando dando nó em pingo d’água 
só mato a sede quando choro um pouco a minha mágoa
mas a platéia ainda aplaude ainda pede bis 
a platéia só deseja ser feliz
a platéia ainda aplaude ainda pede bis 
a platéia só deseja ser feliz

te vira
bota um sorriso nos lábios…’’
Comportamento Geral:
“Você deve notar que não tem mais tutu
e dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
e dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado…’’

É :
“… É
a gente quer viver pleno direito
a gente quer é ter todo respeito
a gente quer viver numa nação
a gente quer é ser um cidadão…’’

Assim seguimos mais de 50 anos após a ditadura onde a música foi de grande relevância para não calar a voz daqueles que pagavam com a carne, o sangue,suor,lágrimas e viver com dignidade e o direito de se expressar. Hoje a luta continua temos vozes(ainda que não ouvidas),é a classe trabalhadora lutando pelo pão de cada dia,pelos seus direitos, são os jovens na luta por uma Educação melhor, mulheres e negros(as) na luta pela conquista de seu espaço na sociedade,é a luta contra a repressão.


Gonzaguinha morreu aos 45 anos em 29 de abril de 1991 ao voltar de uma apresentação no Paraná, vitima de um acidente automobilístico. Nós deixou seus protestos em forma de música outrora vivida e que ainda hoje nos representa na luta que na realidade nunca acabou apenas mudou de cenário e nomes. Mas como ele dizia em sua música E vamos à luta: “Eu acredito é na rapaziada que segue em frente e segura o rojão,eu ponho fé e na fé da moçada que foge da fera,enfrenta o leão. Eu vou à luta com essa juventude que não corre da raia a troco de nada. Eu vou no bloco dessa mocidade,que não tá na saudade e constrói a manhã desejada…”

Gonzaguinha foi considerado um cantor sério, por vezes amargo ou rancoroso, habituado a vestir letras densas em harmonias dramáticas, em geral boleros ou sambas-canção. Entre os maiores sucessos estão “Começaria Tudo Outra Vez”, “Explode Coração”, “Lindo Lago do Amor“, “Espere por Mim, Morena“, “Redescobrir” (na voz de Elis Regina)“É” e “O Que É, O Que É”.

Fontes: memoriasdaditadura.org; historiadaditadura; nossapolitica;
.vermelho.org; esquerdadiario; correiobraziliense.