Entrevista excluisva com Anna Luisa Beserra: brasileira é 1ª a ganhar prêmio da ONU

Premiação será entregue durante a Assembleia Geral da ONU, dia 26 de setembro, em Nova York.

Por Juliana Barbosa

Divulgação ONU

Um filtro que purifica a água usando apenas a luz solar rendeu à empreendedora social baiana, Anna Luisa Beserra, 22 anos, o prêmio Jovens Campeões da Terra, da Organização das Nações Unidas Meio Ambiente. É a primeira vez que uma brasileira recebe o prêmio.

Hoje, o Aqualuz está em 53 residências de cinco estados do Nordeste: Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. A escolha das casas foi feita através de parceiros, como seleções de fundações e projetos de aceleração que a startup participou. 

A maior parte das casas – pouco mais de 30 – fica na Bahia, nas cidades de Cafarnaum, Campo Formoso, Feira de Santana e Morro do Chapéu. Ao todo, Anna Luísa estima que o dispositivo ajude atualmente 275 pessoas. Até o fim do ano, com a perspectiva de implantação no Maranhão, Piauí e Minas Gerais, ela estima que chegue a 700 pessoas. Até o início do ano que vem, o número deve mais do que dobrar, alcançando 1,5 mil usuários

Segundo a ONU, 1,8 bilhão de pessoas bebem água imprópria ao consumo humano no mundo. No Brasil, segundo dados divulgados neste ano pelo Instituto Trata Brasil, cerca de 35 milhões de pessoas não têm acesso a redes de água potável.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, só em 2016, 1,4 milhão de pessoas morreram em decorrência de doenças diarreicas contraídas pelo consumo de água contaminada.

A ONU aponta que estas mortes estão “diretamente ligadas à falta de água potável e à falta de saneamento e de acesso à higiene” e que os problemas atingem principalmente “populações jovens, vulneráveis ou que vivem em zonas rurais remotas”.

A equipe do Muito Mais que Isso conversou com Anna, que está em Nova York, onde vai acontecer uma homenagem durante um baile de gala, marcado para o dia 26, durante a Assembleia Geral da ONU.

Divulgação ONU

MMQIVamos começar falando um pouco sobre você. Como você se define?

Anna – Sou biotecnologista, desde criança sempre tive o sonho de ser cientista, então, aos quinze anos, o que me possibilitou a realizar esse sonho foi participar do Prêmio Jovens Cientistas, do CNPq ( Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que o tema era água, aí eu comecei o desenvolvimento do Aqualuz.

Me defino como uma pessoa criativa, inovadora, que busca sempre resolver problemas reais, que possam causar impactos positivos na vida das pessoas, e o aqualuz é um desses. O aqualuz é o primeiro produto de uma série de inovações que eu tenho em minha mente de realizar durante minha vida. Então, a partir do ano que vem a gente já deve começar o desenvolvimento de outros.

MMQIDe que forma surgiu o interesse pela temática que beneficia o semiárido até a ideia do aqualuz?

Anna – Como eu falei, aos quinze anos, eu vi um cartaz na escola do Prêmio Jovem cientista, fiquei com vontade de participar, e comecei a desenvolver, com a ajuda de alguns professores, e a temática do semiárido foi foco a partir do momento que era conhecido, era muito estudado na escola, apesar de eu ter nascido e sido criada em salvador, nunca tive contato físico com essa problemática, então eu pensei em alguma coisa que pudesse realmente ajudar essa região.

MMQI Como funciona o dispositivo?

Anna – O funcionamento do Aqualuz é muito simples, primeiro eu preciso explicar como é uma uma cisterna. A cisterna da região do semiárido é um grande reservatório para captação e armazenamento de água de chuva, ele é fechado mas, por problemas de manutenção acaba acontecendo de contaminações, e é aí que entra o aqualuz. A gente encaixa o aqualuz na saída da bomba da cisterna, essa água vai para o reservatório, fica em exposição diretamente ao sol por um período de duas a quatro horas, até que a água fique potável. Tem um sensor, que muda de cor, e alerta o usuário que a água está pronta para ser retirada e consumida. Sendo que a capacidade dele é de até 10 litros, Pode fazer até 3 ciclos por dia, e a única manutenção necessária é limpeza com água e sabão.

Arquivo Pessoal Anna Luisa

MMQI Quanto tempo dura o aqualuz?

Anna – O aqualuz dura 20 anos, o equipamento dele, o reservatório principal. E tem umas partes que não são essenciais, são acessórios que tem uma durabilidade um pouco menor, só que dá pra pessoa pode substituir ou viver sem. A gente ainda está estudando essa durabilidade de 20 anos, a gente não tem 20 anos de projeto ainda pra ter uma validação concreta mas, essa é nossa estimativa, isso é o que a gente quer.

MMQI Você foi bolsista do CNPq. como enxerga a atual situação do órgão?

Anna – Eu fui bolsista do CNPq e eu enxergo a atual situação como crítica. Por um lado é triste, porque tantos outros pesquisadores, tantas outras pessoas que poderiam estar desenvolvendo coisas, projetos, produtos ou pesquisas para a ciência e para humanidade, mas, por outro lado, o país está numa situação crítica, as prioridades dos políticos não estão sendo muito a educação, isso é muito triste, mas eu espero que não demore muito para voltar esse estimulo, quer dizer, não é nem por um lado ou por outro: os dois lados são negativos, e eu só espero que os cientistas tenham paciência, não desista das suas pesquisas por essa problemática, por que eu acho que a ciência deve prevalecer sempre, o jeito seria procurar outras fontes de fomento, existem muitos países que eles fomentam pesquisa aqui no Brasil, essa seria uma das saídas, claro que não dá para todos, mas alguns poderiam tentar conseguir.

MMQI Quando você explica o aqualuz dizemos: “como não pensamos nisso antes?”. Você passa a credibilidade que a metodologia é muito fácil e viável. Você acredita que o dispositivo pode ser utilizado em outros países?

Anna – O Aqualuz é sim, uma tecnologia muito simples, ele foi baseado no SODIS (SOlar water DISinfection)tecnologia que utiliza exposição da água dentro de garrafas pets para fazer o mesmo processo de desinfecção solar da água, só que existem vários problemas associados, dentre eles, a própria garrafa PET solta alguns químicos que são tóxicos ao consumo humano, e aí a gente desenvolveu um produto que resolveu esses problemas do SODIS, e sendo viável para essa região do semiárido, sendo especificamente desenvolvido para essa região, não só no Brasil, mas também em outros países do mundo.

Arquivo Pessoal Anna Luisa

MMQI – .A primeira brasileira a vencer prêmio da ONU, logo o principal prêmio ambiental para jovens empreendedores com idades entre 18 e 30 anos. Como você recebeu a notícia ,e o que passa por sua cabeça, agora,que está vivenciando tudo?

Anna – Eu recebi a notícia por e-mail. Mas, foi um e-mail bem tenso. Sabe quando você recebe um e-mail e desesperado pra ler pra saber o que é, o que está escrito e com aquela dúvida se foi aprovado, ou se é um e-mail negativo para dizer que você não foi aprovado? Então foi um sentimento muito bom quando li, fui aprovada, levantei da cadeira, dei um pulo, corri, chorando, para contar a notícia aos meus pais, foi um momento muito, muito bom, e agora que estou aqui, (em nova York), vivenciando isso,está sendo melhor ainda, não imaginava que seria tão impactante. Estou conhecendo pessoas novas, com visões diferentes e positivas do mundo, com trabalhos incríveis na área de sustentabilidade, voltados mesmo para fazer um planeta mais sustentável, e eu já estou aqui inspirada, com novas ideias querendo já mudar minha rotina diária, ser mais consciente, não só com o aqualuz, que é voltado para a água mas, até no dia a dia mesmo, pensando nas atitudes que a gente tem, nas ações que a gente tem que impacta, significamente no meio ambiente, como andar menos de carro, o consumo de gasolina, não usar mais sacolas plásticas, não usar copo descartável. Coisas simples que fazem toda diferença;.

MMQIAos 21 anos você já mudou a história de muita gente, e provavelmente realizou alguns sonhos! Quais são os planos agora?

Anna – Ontem foi meu aniversário de 22 anos, foi o primeiro aniversário que fiz fora do Brasil, e eu ainda acho que fiz muito pouco, sabia? Eu pensando assim, ainda tem tanta coisa que eu quero fazer, no mundo de coisa que passa pela minha cabeça. Nos próximos anos quero criar mais tecnologias, deixar a empresa no âmbito internacional mesmo, tanto o aqualuz, quanto outros produtos, atingindo o mercado fora do Brasil, o máximo de pessoas possível, impactando a vida das pessoas,ajudando o mundo, sendo sempre produtos sustentáveis e alinhados com os objetivos do desenvolvimento sustentável. Para o Aqualuz, por exemplo, a gente pretende nunca parar o desenvolvimento, sempre vão ter novos impactos associados ao aqualuz.

MMQI.Você é CEO de uma startup majoritariamente formada por mulheres, Jovens cientistas. Há preconceito de gênero na área? Se sim, isso interfere de alguma forma?

Anna – Sim, já passei por algumas experiências que eu percebi que os homens estavam sendo favorecidos e havia uma visão machista sobre mim e minha empresa, não só por eu ser mulher, mas também por eu ser jovem. Mas, eu acredito que hoje, na nossa empresa isso não existe, a gente tem homens também, e todo mundo convive pacificamente, não há ninguém com visões distorcidas : ” Eu sou homem, eu tenho mais valor que você..”. É uma coisa que a gente acredita que tem que criar cultura na sociedade mesmo. Acho que hoje, com o espaço que a gente está criando, com a credibilidade que a gente está tendo, o fato de ser mulher e ser jovem, não está sendo mais um ponto negativo, está sendo um ponto positivo, mostrando o próprio potencial que as mulheres e os jovens tem no mundo, então a parte do preconceito está sendo superada, no nosso caso mas, a gente sabe que muitas pessoas que estão começando agora ainda enfrentam esse problema, a gente quer servir de inspiração. É algo que precisa ser trabalhado muito, ainda mas, acredito que já esteja evoluindo.

MMQIO presidente Jair Bolsonaro estará em Nova York quando você for premiada. O que diria ao presidente diante da politica ambiental brasileira no exterior, criticada por especialistas e líderes mundiais em meio ao avanço do desmatamento e das queimadas?

Anna – De fato, a postura não é o melhor cenário para o Brasil, e deveriam pedir auxílio de especialistas na área ambiental, para se posicionarem de forma ideal para o planeta.

Crise no CNPq

O pontapé mesmo para o Aqualuz sair do papel veio no curso de Biotecnologia na Ufba. Ainda no primeiro semestre, participou da incubadora da instituição – a chamada Inovapoli. Por um ano, entre 2015 e 2016, Anna recebeu uma bolsa de iniciação tecnológica do CNPq para desenvolver o projeto.

No início do mês, a Capes ( Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ), anunciou o corte de 5.200 bolsas, que deixariam de ser renovadas (ou seja, redistribuídas para novos alunos) para conseguir manter as que estavam ativas. No total, a agência já cortou 11.800 bolsas neste ano. Já o CNPq afirmou que não teria como garantir o pagamento de seus 84.000 bolsistas a partir deste mês por falta de verbas. Por enquanto, entidades ligadas à produção científica brasileira tentam chamar a atenção do Congresso para os prejuízos à pesquisa brasileira, caso a previsão orçamentária não seja corrigida pelos parlamentares.

Fontes: El País, BBC, Agência Brasil