Pílula química

Flúor e a Teoria da Conspiração: é de cair os dentes, digo, o queixo.

Por Hélio Messeder

(Wendell Araujo/Mundo Estranho)

Estava indo para o trabalho um dia desses e o motorista do Uber puxou conversa. Falava empolgado que, além de motorista, ele trabalhava vendendo pasta sem flúor e colchão quântico alinhador de spins. Enquanto dirigia, me explicava empolgado sobre os benefícios do colchão e da pasta de dente feita de babosa. Sem respirar, me contou que o flúor era colocado nas pastas de dente e na água por um governo que gostaria de controlar nossas mentes e que o flúor seria responsável por calcificar a glândula pineal impedindo a gente de pensar e se conectar com a nossa espiritualidade.  Aquele argumento não era novidade, já tinha visto em alguns debates na internet e até alguns médicos falando que o flúor seria algo tóxico, pois esse gás era subproduto das industrias e foi colocado na água como forma de se livrar da substância residual do mal. Já vi textos de Whatsapp que apontam que os problemas de tireoide seriam devido ao flúor que está, na tabela periódica, na mesma família do iodo e o substitui causando problemas que nenhum médico é capaz de prever. Substituindo a pasta de dente, o pessoal sugere o uso de açafrão, aloe vera, óleo de coco, argila e outras muitas coisas que transformam a boca numa cozinha do Master Chef amadores. Mas antes de sair por aí trocando a pasta de dente por urucum quântico do himalaia, vamos ouvir o que a ciência tem a dizer sobre isso.

Internet

         A primeira coisa que precisamos ter claro é que o flúor da pasta de dente não é o gás flúor (F2) que é tóxico e corrosivo. O que temos na pasta são compostos de flúor (Fluoreto de sódio, fluoreto de estanho, monofluorfsfato de sódio).  Se tem uma coisa que a ciência química nos ensina é que a forma que um elemento aparece em alguma substância muda todas as suas propriedades. Assim, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o flúor da pasta de dente      (que e aparece como íons fluoreto) não parece em nada, em termos de propriedades, com o gás flúor ( substância formada pela molécula de F2). Assim, fique tranquilo, o flúor da sua pasta não vai te corroer por dentro ou fazer você morrer.

       Outro ponto importante é saber que os íons fluoreto quando incorporados na água e na pasta de dente ajudam a minimizar o processo de desmineralização do dente. A incorporação dos íons flúor forma a fluorpatita que misturada com a hidroxipatita já presente nos dentes deixa o esmalte dental (pode falar assim?) mais resistente. Dentes mais fortes, como nos ensinou a fatídica propaganda dental, não entram cáries.

       Todas as pesquisas apontam que não há nenhum perigo em usar sais de flúor na água e na pasta de dente, principalmente porque a quantidade desses sais é muito pequena e não acumulativa no organismo.  O flúor não pode calcificar a glândula pineal, pois quem calcifica é o cálcio (rsrs)  e também pois não há evidencia de formação de nenhum sal solúvel nessa glândula e nem influencia na tireoide

     O excesso de flúor pode causar fluorose. Essa doença causa manchas esbranquiçadas nos dentes e acontece se água estiver com muito sais de flúor ou se você comer muita pasta de dente (por isso presente em crianças). Se você estiver pretendendo trocar a manteiga do café da manhã por pasta de dente, talvez seu dente fique um pouco amarelado.

        E as receitas naturais de pasta de dente? De fato, sua efetividade precisa ser estudada, mas eu fico com o conselho que minha mãe me deu na infância: nem tudo é para colocar na boca. Escove os dentes direitinho com pasta de dente, passe o fio dental e use açafrão como tempero.

 Eu dei 5 estrelas para o motorista do Uber. Para a teoria da conspiração com flúor, eu daria 1 estrela, ou melhor, eu acho que ela nem merece ser avaliada e precisa ser denunciada e banida de qualquer aplicativo de transporte ou de comunicação.

Referências:

RAMIRES, Irene; BUZALAF, Marília Afonso Rabelo. A fluoretação da água de abastecimento público e seus benefícios no controle da cárie dentária: cinqüenta anos no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, v. 12, p. 1057-1065, 2007.

CURY, Jaime Aparecido. Uso do flúor e controle da cárie como doença. In: Odontologia restauradora: fundamentos e possibilidades. 2002. p. 31-68.

SILVA, Roberto R. et al. A química e a conservação dos dentes. Química Nova na Escola, v. 13, p. 3-8, 2001.

STORGATTO, Greyce A. et al. A Química na Odontologia. Química Nova na Escola, v. 39, n. 1, p. 4-11, 2017.https://super.abril.com.br/saude/estudo-mostra-que-fluor-da-pasta-de-dentes-e-sim-essencial-contra-carie/