Insights do Cotidiano

Saúde Mental em Tempos de Isolamento

Por Priscilla Fraga

“Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo o planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém

O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não ‘tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não ‘tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não ‘tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar”

(Raul Seixas)

Como Raul cantava “No dia em que a Terra parou”, imagina-se que ele não fazia idéia do que enfrentaríamos anos depois. Hoje sabemos que o isolamento social é a melhor forma de prevenção ao corona vírus, porém esse novo “normal” trazimpactos nas nossas emoções. 

Cada pessoa vivenciará o momento de maneira diferente, isso é inegável, independente da condição física, mental ou social, porém se já temos antecedentes de diagnóstico de transtornos psicológicos, chamo ainda mais atenção para a ansiedade e a depressão, pois os desdobramentos podem ser ainda mais graves, para algumas pessoas.

E você deve estar, a se perguntar o por que? Bom, porque, pessoas ansiosas se preocupam excessivamente, apresentam dificuldade de se concentrar, irritam-se com facilidade, tem alteração no sono, tensão muscular, além das suas expectativas, serem passíveis a frustração, na grande maioria das vezes. Já nos transtornos depressivos, as pessoas tendem a estarem em um estado de tristeza profunda, tomadas por sentimentos de desespero e desesperança, o que interfere diretamente em atividades da vida cotidiana, diminuindo o interesse em realizá-las, insônia, além dos fatores externos que podem desencadear-la como estressores, perdas e separações.

O que podemos fazer ? Segue abaixo cinco dicas:

1. Rotina

Tente elaborar uma rotina mesmo que semi-estruturada, passível a flexibilizações e mudanças, pois ela ajudará a organizar suas atividades diárias e evitará sensações de angustia e vazio.

2. Tecnologia

Use-a de maneira sábia, a fim de estar próximo dos seus afetos. Evite entrar em contato com notícias que lhe desregulem emocionalmente, ocasionando por consequência crises emocionais.

3. Meditação

Pratique-a, pois ela irá lhe ajudar a diminuir o stress e a ansiedade, melhorar a concentração, além de ser uma excelente ferramenta para estar mais em contato com o autoconhecimento.

4. Atividade Física

Faça atividades que te dêem prazer, pois elas colaboram com o sistema imunológico e melhoram a sensação de bem estar.

5. Terapia On-line

Busque ajuda, caso perceba que não está conseguindo administrar as suas demandas, e não a hesite, ela é fundamental no processo.

Esse nosso inimigo é invisível, mas você não precisa ser diante das suas necessidades.

Se cuide, se ame, se proteja!

*A experiência de vida e profissional.

Fontes utilizadas:

*https://ufrj.br/noticia/2020/03/25/coronavirus-saude-mental-em-tempos-de-isolamento

*http://www.pucrs.br/blog/cuidados-com-a-saude-mental-em-tempos-de-isolamento-social/

*https://saude.abril.com.br/podcast/a-saude-mental-durante-e-apos-a-pandemia-de-coronavirus-podcast/

Serviços prestam apoio psicológico gratuito na BA; confira

Instituições podem ser encontradas em Salvador e Feira de Santana.

Por Juliana Barbosa

Centro de Valorização da Vida seleciona voluntários em Santos — Foto: Divulgação/CVV

Pessoas vítimas da depressão e outros distúrbios psiquiátricos, como transtorno de ansiedade generalizada, podem contar com serviços de entidades que prestam apoio psicológico gratuito ou com valores sociais, em Salvador e em Feira de Santana.

Centro de Valorização da Vida (CVV)

Atendimento através do telefone 188

O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias.

O atendimento pode ser feito pelo telefone 188 – com chamada gratuita –, através de e-mail ou chat disponíveis no site do CVV, ou presencialmente nas seguintes unidades:

  • Salvador
    Rua do Bângala, Nº. 47/99 Nazaré. Horário: atendimento 24h
  • Feira de Santana 
    Rua Senador Quintino, 713, Bairro Olho Dágua. Horário: 10h às 22h.

Universidade Federal da Bahia

A Universidade Federal da Bahia (Ufba) fornece tratamento psicológico e terapia gratuita para vítimas de distúrbios psiquiátricos. Os antedimentos são feitos no Instituto de Psicologia da Ufba, em Salvador, na Rua Aristides Novis, 197, Federação. Informações podem ser obtidas pelo telefone: (71) 3235-4589.

Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (Bahiana)

A Bahiana também oferece sessões gratuitas com psicólogos, na Sessão Clínica do Serviço de Psicologia da Bahiana (Sepsi). A unidade da escola que faz os atendimentos é em Salvador, na Avenida Dom João VI, nº 275, Brotas. Informações sobre dias e horários podem ser obtidas pelo número: (71) 3276-8259.

Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge)

O Centro Universitário Jorge Amado (Unjorge) também fornece atendimentos psicológicos para crianças, adolescentes e adultos, por meio do através do Instituto de Saúde (IS) da universidade, que fica no Campus Paralela, na Avenida Luis Viana, n. 6775.

O IS funciona de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 22h, e aos sábados, das 8h às 12h. Informações sobre os atendimentos podem ser obtidas através dos telefones (71) 3206-8015 e (71) 3206-8489, ou através do site do centro universitário.

Instituto Junguiano da Bahia

O Instituto Junguiano da Bahia também oferece sessões de terapia abordagem analítica junguiana, com valores sociais, na clínica escola da instituição. O Junguiano fica no bairro do Candeal, em Salvador, na Alameda Bons Ares, nº 15. As consultas e valores podem ser checados por meio dos telefones: (71) 3043-7089 e (71) 3043-7049.

Falar é a melhor solução. Você não está sozinho.

Fonte: G1

Suicídio: como falar sobre o ato sem promovê-lo

Em menos de um mês, três casos tiveram grande repercussão nacional. De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil registra 11 mil casos de suicídio por ano, e ocupa o 8º lugar no ranking de mortes por suicídio no mundo. Na Bahia, ,foram contabilizados 3.324 casos entre 2010 e 2017.

Por Juliana Barbosa

Getty Images

Há muito suspeita-se que o suicídio, assim como a histeria, seja contagioso, e que os vírus dessa epidemia sejam a mídia e a exposição sensacionalista Nas últimas semanas, três casos chamaram atenção nas redes sociais: Domingo, 21 de Abril, morre a jovem Yasmin Gabrielle Amaral, de 17 anos, conhecida nacionalmente suas apresentações musicais no ‘Programa Raul Gil’ (SBT), quando participava do quadro ‘Eu e as Crianças’. No sábado seguinte, dia 28, a jovem Dayane Sousa Barros, de 23 anos, estudante de enfermagem da Faculdade Adventista da Bahia (IAENE), foi encontrada morta onde vivia em Capueiruçu. No último fim de semana, a estudante de medicina da Universidade Federal da Bahia, e miss Ilhéus 2018, Gabriela Mendes Viegas, de 27 anos, foi encontrada morta no apartamento do noivo, no bairro Nova Suíça, região Oeste de Belo Horizonte, no fim da noite da última sexta-feira (3).

Minutos após o anuncio das mortes, o número de seguidores nos perfis nas redes sociais das vítimas triplicou, e desde então, o assunto passou a fazer parte da rotina. Mas, até quando, até que ponto esse interesse por detalhes é saudável?

Emile Durkheim, sociólogo francês do século XIX, o primeiro a apontar o suicídio como patologia social, acreditava que a sugestão não era relevante nas análises dos dados de auto-homicídios. Segundo ele, os suicídios que acontecem por sugestão já estão fadados a acontecer, independentemente de influências externas, que só podem acelerá-los. Talvez sua opinião fosse diferente se na sua época a mídia tivesse o poder que possui hoje.

O sociólogo americano David Phillips, “comparando a taxa de mortalidade americana com as primeiras páginas que reportam suicídios desde a Segunda Guerra Mundial, descobriu que suicídios aumentam significativamente de número no mês seguinte a uma história de suicídio altamente publicizada”.

O exemplo que ele cita é de Marilyn Monroe, que desencadeou um salto de 12% nos suicídios, 197 suicídios a mais do que seria esperado num mês normal após a sua morte.

Na manhã de 7 de agosto de 1962, o mundo acordou em choque. Na noite anterior, a governanta da famosa atriz Marilyn Monroe encontrou o seu corpo no banheiro. A mídia logo confirmou que era um suicídio. Durante os meses seguintes, 303 jovens se suicidaram. O efeito Werther ilustrava mais uma vez as primeiras páginas dos jornais.

Na década de 90, muitos anos depois desse famoso caso, a sociedade americana voltava a experimentar algo semelhante com a morte de Kurt CobainToda vez que um meio de comunicação noticiava o suicídio de uma celebridade, uma epidemia de suicídios abalava o país.

Muitos artistas ao longo da história tendem a mostrar uma romantização do suicídio, um fator determinante em muitas dessas mortes.

Alguns especialistas rejeitam o efeito Werther na sua totalidade, mas não as suas nuances. Eles acreditam que é possível que as pessoas com tendências suicidas copiem a forma de morrer das pessoas famosas, mas isentam as celebridades de responsabilidade pela morte das outras pessoas.

É necessário tratar as notícias desse tipo com uma sensibilidade especial. Não devem ser mostradas fotos ou elementos de identificação, especialmente no caso de crianças e adolescentes. É importante que o suicídio não seja idealizado como uma via de fuga da realidade.

Mas, que tipo de conexão poderia existir entre alguém do mundo do entretenimento e uma pessoa normal? Seria possível que esses indivíduos seguissem um tipo de processo de imitação ou eram simplesmente mórbidas coincidências?

É isso que David Phillips chamou de “Efeito Werther”, referindo-se ao personagem da obra homônima de Goethe, publicada em 1774, em que o protagonista se suicida por conta de um amor frustrado.

Os casos reacenderam a discussão sobre como tratar temas polêmicos sem incentivar imitações no mundo real, o chamado “efeito Werther”, que desencadeou uma onda de suicídios na Europa.

Yeats dizia que fomos nós quem inventamos a morte. É verdade. Mas a sua banalização, e consequente mutação em produto “comercial”, é obra midiática, e cabe à mídia, portanto, avaliar a forma e suas consequências ao divulgar um suicídio. 

Quem se interessa pelo debate deve ler o livro “November of the Soul – the Enigma of the Suicide”, de George Howe Colt, publicado pela Scribner em 2006, mas ainda hoje considerado um dos melhores estudos sobre melancolia. Há muito suspeita-se que o suicídio, assim como a histeria, seja contagioso, e que os vírus dessa epidemia sejam a mídia e a exposição sensacionalista do assunto.


Efeito Werther

Divulgação: “Os sofrimentos do jovem Werther”

O efeito Werther foi o termo designado pelo sociólogo David Phillips em 1974 para definir o efeito imitativo do comportamento suicida. O nome vem da obra “Os sofrimentos do jovem Werther”, do escritor alemão Wolfgang von Goethe. Nela, o protagonista se suicida por amor.

Foi um grande sucesso e, logo após a sua publicação em 1774, cerca de 40 jovens perderam a vida de maneira muito semelhante ao protagonista. Este fenômeno estranho e macabro levou à proibição do livro em países como a Itália e a Dinamarca.

Imagem: Jovem Werther

Com base em casos semelhantes, Phillips realizou um estudo entre 1947 e 1968 no qual encontrou dados reveladores. No mês seguinte após o The New York Times publicar uma história relacionada ao suicídio de alguém conhecido, a taxa de pessoas que se suicidavam aumentava em quase 12%.

Este padrão continua a se repetir até hoje. Em meados de 2017, o Canadá tentou proibir a série “13 Reasons Why” depois de considerar que ela poderia causar esse mesmo efeito. A Organização Mundial da Saúde preparou inclusive um documento com diretrizes para os jornalistas seguirem no momento de informar os fatos relacionados ao suicídio.


As buscas pela palavra “suicídio” no Google aumentaram 100% no Brasil na terceira semana de abril, na comparação com o mesmo período de 2015. A empresa também registrou aumento repentino na procura por expressões como “suicídio indolor” e “suicídio rápido”.

Abril também trouxe notícias sobre suicídios consumados e tentados em diferentes Estados do país, como Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraíba. Em alguns casos, a polícia investiga possível relação com um jogo virtual chamado Baleia Azul, que estaria induzindo adolescentes a automutilações e ao suicídio.

O crescimento significativo tem raiz em dois pilares importantes, segundo a instituição: o primeiro deles foi o convênio fechado com o Ministério da Saúde, que promoveu uma expansão e a gratuidade de rede 188, primeiro telefone sem custo de ligação para a prevenção do suicídio, que chegou a sete novos estados brasileiros no dia 30 de março daquele ano — Alagoas, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe. Com isso, aumentou para 22 mais o Distrito Federal aqueles que agora oferecem esse acesso à população. Neste mesmo mês, que marcou o lançamento no país da série 13 Reasons Why – produção da Netflix sobre uma adolescente que registra em áudio os motivos que a levaram a se suicidar -, houve um boom nas buscas por imagens relacionadas a suicídio.

Há 56 anos, o CVV (Centro de Valorização da Vida) se dedica a atender pessoas carentes de apoio emocional e com ideações suicidas. Desde a sua criação, os voluntários atenderam, em média, um milhão de pessoas por ano. Mas, em 2017, o serviço bateu recorde. Pela primeira vez, foram registrados 2 milhões de atendimentos.


“O mundo moderno tem feito com que a ansiedade e depressão cresçam cada vez mais. Então, a ampliação das condições de acesso contribuiu muito para o aumento dos números”, diz Robert Gellert Paris Junior, presidente do CVV. “Mas a chegada da série teve um grande impacto também. Nossos gráficos registraram picos de atendimento na época.” “Há jovens que nos ligam dentro das festas, porque estão se sentindo sós no meio da multidão”, conta. “E a queixa da falta de escuta por parte de amigos e familiares tem sido cada vez maior entre jovens. Enquanto cresce a facilidade de se expor na internet de maneira superficial, aumenta na mesma proporção a dificuldade de comunicação real e séria. A gente ouve com muita frequência: ‘Vou contar uma coisa que nunca disse a ninguém’.” A garantia de sigilo contribui muito para a confiança”.

Falar sem promover

Para a psicóloga Karen Scavacini, coordenadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, não falar sobre suicídio pode ter um efeito tão devastador quanto falar de maneira inadequada.

“Quanto maior o silêncio e segredo em torno de um assunto tabu, pior para quem lida com ele. Poder falar e contar a história pode ter um efeito curativo em quem lê e em quem escreve”, defende Karen.

Autora de Mentes Depressivas – As Três Dimensões da Doença do Século (editora Globo), a psiquiatra Ana Beatriz Silva menciona a onda de suicídios atribuída ao lançamento do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, obra de Goethe de 1774 em que o protagonista se mata após um amor não correspondido.

Como reação, o livro foi recolhido e proibiu-se a discussão sobre o suicídio por acreditar que seria algo que incitasse a prática.

“Estima-se que 90% dos suicídios poderiam ser prevenidos. Isso faz pensar que esse preconceito histórico em falar sobre suicídio não ajudou a prevenir essas mortes”, diz Silva, citando estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Silva avalia que os padrões da mídia ao relatar casos de suicídio também não contribuem para resolver esse problema social.

“Só falamos em suicídio quando um famoso se mata. Não se pode glamorizar um suicídio, transformar o suicida em herói. Um suicídio é um ato de desespero”, diz ela, para quem relatar a trajetória de sofrimento da pessoa é mais relevante do que informar, por exemplo, métodos empregados no ato.

Para Scavacini, do Instituto Vita Alere, apresentar alternativas e divulgar locais ou formas de se obter ajuda é outro meio de falar de suicídio com maior atenção à prevenção.

Imagem: Internet

“Se o relato indica ao final onde a pessoa pode receber ajuda, isso se transforma numa rede de cuidado. Muitas pessoas estão tão perdidas e impactadas que mesmo uma sugestão de caminho a seguir faz grande diferença”, orienta.

Catarse coletiva

Para a professora de Comunicação da Universidade Federal Fluminense Renata Rezende, o excesso de referências sobre suicídio, com aumento repentino na circulação de relatos na internet, é exemplo de uma “catarse coletiva”: impacto amplificado, nas redes sociais, de assuntos e práticas que são objeto de tabu.

São assuntos, diz ela, geralmente ligados à esfera do segredo, do proibido e que, por isso, despertam a curiosidade.

Rezende afirma que o aumento do interesse pelo suicídio não significa que a prática esteja sendo mais estudada. Pode ser, por exemplo, que a tendência seja apenas um desabafo de pessoas tocadas de algum modo pelo assunto.

Daí, diz a professora, a importância de observar como essas catarses se manifestam.

“Muitas vezes, na falta de conversar com um amigo ou procurar tratamento psicológico, o usuário faz sua catarse no espaço que tem: seu perfil nas redes sociais”, afirma.

Algo semelhante, considera Rezende, ocorre com a relação com a morte. “Com as redes sociais, as pessoas começaram a falar mais sobre morte, a fazer memoriais digitais para amigos e parentes, falar das suas dores”, diz.

‘Gatilhos’

Divulgação: 13 Reasons Why

Para a psicoterapeuta Alessandra Ramasine, voluntária há sete anos do Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço de apoio emocional e prevenção do suicídio, usar as redes sociais como “mural” de desabafos nem sempre é uma boa ideia, seja para quem relata ou lê.

“Para relatos de experiências, especialmente as doloridas e violentas, é necessário um ambiente seguro, de acolhimento para dores e memórias”, afirma Ramasine. “Do mesmo modo, esses relatos causarão impactos e consequências que nem sempre poderão ser administradas individualmente.”

Impactos negativos em quem lê, ouve ou assiste a reproduções de violência, sexo ou morte, desencadeando fortes processos emocionais complexos, são chamados de “gatilhos”.

“Uma cena de suicídio pode causar muitos impactos na vida de um jovem por meio do gatilho, especialmente quando esses jovens estão fragilizados, angustiados e perdidos nas questões cotidianas, sem apoio e orientação, desconectados com a vida”, afirma Ramasine.

Segundo ela, jovens que enfrentam falta de oportunidades de desenvolver um projeto de vida, de planejar o futuro e construir identidade por meio de autoconhecimento, autoestima e autoconfiança podem ser os mais afetados.

Nesse sentido, a psicoterapeuta diz ver aspectos positivos e negativos na série da Netflix sobre suicídio. É útil ao lançar um alerta sobre o problema a pais, professores e amigos, mas prejudicial ao retratar o ato de forma extremamente realista.

Renata Rezende, da UFF, sugere que quem publique relatos em redes sociais sobre suicídio também tome cuidados com o leitor.

O termo “Trigger warning” (aviso de gatilho, em português), por exemplo, tem sido usado na internet, como em blogs feministas, na introdução de textos com relatos de vítimas de estupro.

“A importância desse aviso é prevenir e avisar que os assuntos abordados podem desencadear processos emocionais complexos, dependendo do modo de recepção de quem os assiste ou consome”, afirma a professora.

Mostrar ou não?

No Brasil, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014 – um aumento de quase 10%, segundo dados do Mapa da Violência 2017. O estudo é publicado anualmente a partir de dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde.

Para Ana Beatriz Silva, como o suicídio normalmente está associado a múltiplos fatores, físicos, sociais e de personalidade, uma cena só será um fator desencadeante caso a pessoa apresente “um quadro de alteração de comportamento, principalmente a depressão.”

A psiquiatra disse ter notado um aumento na procura por serviços psicológicos em sua clínica após a “catarse coletiva” motivada pela discussão cultural sobre suicídio. Segundo ela, a maior parte de seus pacientes adolescentes fez questionamentos sobre suicídio motivados pela série da Netflix.

“Eles me perguntavam: ‘Qualquer um pode se suicidar?’ ‘Como uma pessoa se deprime?’. Ou seja, para aqueles que tem contato com uma ajuda psicológica ou que não apresentam uma alteração comportamental, a série foi capaz de despertar uma curiosidade positiva”, diz.

CVV – Quem está do outro lado da linha?

O atendimento 24 horas é realizado por 2.400 voluntários, que passam previamente por uma capacitação de escuta qualificada e sensível, que dura 40 horas. E a seleção está sempre aberta. Nenhum dos candidatos precisa, necessariamente, ser psicólogo de formação. Seu propósito não é substituir os serviços médicos e psicológicos, mas servir de apoio a eles. “A ideia é conseguir acolher a dor de quem liga e conversar sem pressa. Normalmente, depois do desabafo, a pessoa se sente aliviada e percebe que precisa de ajuda profissional”, afirma Robert. “Servimos de apoio. Os psicólogos e psiquiatras não funcionam 24 horas por dia, mas se a pessoa precisa aliviar alguma angústia, é só nos ligar.”

O suicídio é um processo

Robert faz questão de reforçar que o suicídio é um processo, que vai “fermentando” dentro da pessoa. Por isso, falar abertamente sobre ele é fundamental. Segundo um estudo recente realizado pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), 17% dos brasileiros já pensaram em suicídio. “O processo começa pelo pensamento ou ideação. E aí se você não conversa sobre isso, não enxerga que pode ser tratado. Esse sentimento tende, então, a aumentar a ponto de atingir um segundo estágio, o do planejamento. Em seguida, pode acontecer a tentativa. Quando isso é manifestado para a gente, existe a possibilidade de desarmar a bomba.” Na ligação, é permitido chorar e reclamar à vontade. “Aliviar a dor é o primeiro passo para encontrar uma solução, que muitas vezes é a ajuda profissional. Estamos falando de um problema de saúde pública.”

Fatores que podem desencadear o suicídio entre estudantes

Atualmente, o suicídio é a terceira causa de morte na faixa dos 15 e 35 anos e, nas últimas décadas, tem aumentado o percentual entre os jovens em todo o mundo. Na perspectiva da saúde pública, ele é um fenômeno social de distribuição bastante irregular, por isso, fica difícil definir uma causa única. O que existe, de fato, são situações de vulnerabilidade que podem acometer as pessoas e fazer com elas vejam no suicídio a única alternativa.

Para a Dra. Juliana Bernardo Vicente Alves, médica psiquiatra voluntária no NAE (Núcleo de Apoio aos estudantes da Unifesp) e no Núcleo Trans (Núcleo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Assistência à Pessoa Trans Professor Roberto Farina Unifesp), existem alguns fatores de risco para o suicídio consolidados para toda a população, inclusive, adolescentes: gênero masculino, não ter um relacionamento estável, extremos de situação socioeconômica, residir em área urbana, ser ateu, isolamento social, situação de perdas recentes, ter história familiar de suicídio, ter tido uma tentativa anterior de suicídio, ter doença física incapacitante, etc.

A questão química também deve ser considerada. Sabe-se que o cérebro funciona às custas de neurotransmissores e que eles têm uma importância muito grande no ato final do suicídio. A serotonina é responsável pelas atitudes ligadas ao impulso e a noradrenalina tem um papel fundamental no interesse que as coisas despertam no indivíduo. Diversos fatores podem influenciar tal funcionamento como, por exemplo, as patologias psiquiátricas. Entre os suicidas, estima-se que 15% apresentam depressão grave, 15% alcoolismo e 10% esquizofrenia. Outro aspecto que chama atenção é o notório e crescente diagnóstico de transtornos de personalidade nesses indivíduos.

“Suicídio: informando para prevenir”, cartilha publicada pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria — Foto: Reprodução

“Suicídio: informando para prevenir”, cartilha publicada pelo Conselho Federal de Medicina e Associação Brasileira de Psiquiatria — Foto: Reprodução

Os estudantes e os adolescentes apresentam características inerentes à fase de transição em que vivem. Eles podem apresentar fatores de risco adicionais para o suicídio: a tendência natural para se comunicar por meio da ação (uso de substâncias psicoativas, por exemplo); as mudanças biopsicossociais anteriores ao início da vida adulta (inclusive com uma maior instabilidade emocional) e o fato de estar inserido em uma sociedade que cobra, cada vez mais precocemente, responsabilidades e desempenhos máximos em uma atmosfera de grande competitividade.

A campanha Setembro Amarelo é uma oportunidade de falar sobre o assunto. Ajudamos a quebrar um tabu e a prevenir o suicídio. Carlos Correia, voluntário no CVV

Medicina: por que o suicídio nesse curso é tão comum?

A cada 45 minutos, uma pessoa se suicida. Estudantes de medicina fazem parte da população de risco. Cursos como os de Medicina lidam com muita pressão. Eles são, na maioria das vezes, em período integral, por isso, requerem uma grande dedicação dos estudantes e possuem uma rotina muito desgastante.

Quem faz o curso, geralmente, sonhou muito com isso e passou muitos anos fazendo cursinho para conquistar a tão almejada aprovação. Muitas vezes, aquelas grandes expectativas se transformam em uma realidade frustrante, cheia de cobranças e responsabilidades gigantescas, afinal, esses estudantes estão lidando com o fato de assistirem às aulas, fazerem atendimentos, provas e procedimentos e cuidando de outra vida humana.

Além disso, a carga emocional administrada é grande porque esse estudante também está passando por diversas mudanças, como a mudança de cidade (por causa da própria faculdade), a saída da casa dos pais para estudar, a pressão pelo alto desempenho tanto dos familiares (muitos são os primeiros médicos na família) quanto dos próprios colegas de sala.

No decorrer do curso, é possível também vivenciar situações da profissão, principalmente nos últimos anos, com o internato. Nesse período, a carga horária dentro de hospitais aumenta assim como o contato com pacientes e o sofrimento deles com os problemas de saúde. A prova de residência também se aproxima, fazendo com que a ansiedade cresça e as horas de estudo sejam prolongadas. A saúde emocional pode ser assim abalada, já que a vulnerabilidade é maior.

Depois de formado, as coisas também não são fáceis. A taxa de suicídio entre médicos é 70% maior que na população em geral, segundo dados do Conselho Regional de Medicina de São Paulo. Fatores que contribuem para esse alto número são o grande estresse profissional, o fato de lidarem com tragédias humanas e o fácil acesso a medicamentos.

Sinais de alerta

Alguns sinais e comportamentos podem indicar se a pessoa está em uma situação limite, como os sintomas depressivos ou mudanças abruptas de comportamento.

É preciso ficar alerta quando a pessoa:

  • Insinua que é um fardo para os demais e que em breve deixará de prejudicar os outros;
  • Relata que a vida não tem sentido de ser vivida e que a sua morte seria um alívio para todos;
  • Tem uma preocupação com o efeito do suicídio sobre os familiares;
  • Verbaliza uma ideação suicida;
  • Prepara um testamento ou uma carta de despedida;
  • Está próxima de uma crise vital (luto; cirurgia iminente);
  • Apresenta pessimismo ou falta global de esperança;
  • Não consegue se recuperar após perdas ou rompimentos em relacionamentos afetivos.

O que as pessoas que estão ao redor podem fazer?

Segundo a Dra. Juliana, deve-se acolher essa pessoa, abordando o tema de forma emocionalmente neutra e pontuando que existem formas de ajudá-la. Algumas perguntas simples podem ajudar a esclarecer se existe uma possível ideia suicida:

  • Tem perdido prazer nas coisas rotineiras, ou perdido sentido da vida?
  • Perdeu a esperança, seria melhor morrer?
  • Sente-se útil?
  • Tem esperança no futuro?
  • Às vezes, pensa em simplesmente sumir?
  • Pensa que é melhor morrer?
  • Quer ser ajudado?

Uma vez identificado, é importante não desqualificar o sofrimento, mantendo uma atitude não crítica e não julgadora. É fundamental orientar sobre as possibilidades de apoio existentes, como os serviços de ajuda. É importante também acionar os familiares dessa pessoa. No caso de risco de suicídio iminente, é necessária uma intervenção imediata buscando um serviço de urgência para uma avaliação melhor.

“90% dos casos de suicídio podem ser prevenidos, desde que existam condições mínimas para oferta de ajuda voluntária ou profissional”

Como evitar a romantização do suicídio

Apesar de tudo, é necessário falar sobre o suicídio. Precisamos dizer para aquelas pessoas que estão perdidas que existe outra saída e que podemos ajudá-las a encontrar um novo caminho. Manter o silêncio e olhar para o outro lado serve apenas para estigmatizar um problema que afeta muitas pessoas. Você deve sempre tentar fazê-lo de forma respeitosa e assertiva, eliminando o enorme tabu que o rodeia. Ignorar ou esconder uma realidade não significa que ela não existe, mas que ela se torna cada vez mais forte.

Centro de Valorização da Vida  188

Fontes: CVV, SESAB, MS, BBC, A mente é maravilhosa, IstoÈ, Folha de São Paulo,G1, A Tarde, Tv Foco, Forte no Recôncavo, Universa UOL..